Helen Osório, UFRGS
Campeiros e domadores: escravos da pecuária sulista, séc. XVIII
Por muito tempo julgou-se que a atividade pecuária fosse incompatível com a escravidão. Por um lado, pela mobilidade e grau de liberdade que concederia ao escravo; de outro, pelo fato da criação de gado ser umaatividade de abastecimento das áreas exportadoras que não geraria uma acumulação suficiente para a aquisição contínua de cativos. No entanto, recentes investigações têm comprovado o contrário, tanto paradiversas regiões do Brasil quanto do Rio da Prata. Propõe-se uma discussão sobre as formas concretas e peculiares da escravidão em zonas fronteiriças, centrada na capitania do Rio Grande. A principal fonteutilizada são os inventários post-mortem, através da qual são definidos os tipos de unidades produtivas e verificado o uso da mão-de-obra cativa. Partiremos de uma caracterização demográfica da populaçãoescrava da capitania entre 1765-1825 para, em seguida, analisar os escravos especializados na pecuária: os campeiros e domadores. Será traçado um perfil demográfico destes escravos, analisando-se idade,nação, tipos de plantéis em que são encontrados (grandes ou pequenos, com presença de famílias ou não).
 

Luis Augusto Ebling Farinatti, UFRJ
Nos rodeios, nas roças e em tudo o mais: trabalhadores escravos na Campanha Rio-grandense, (1831-1870)
A investigação sobre a escravidão nas zonas onde preponderou a pecuária extensiva não participou vivamente do grande avanço da produção historiográfica sobre escravidão no Brasil, ocorrido nas últimas décadas. Esse fato pode ter se devido a razões diversas. De um lado, a influência de uma tradição historiográfica que acreditava que essas regiões, pouco capitalizadas, não teriam condições de prover um incremento contínuo de cativos. De outro, esse pouco interesse pelo estudo da escravidão na pecuária pode ter se devido à verificação de uma presença relativamente baixa de população cativa nas regiões de criação de gado, se tomadas em relação a muitas das regiões agrícolas brasileiras. Por fim, a pecuária também foi vista, tradicionalmente, como palco por excelência de diversas formas de trabalho livre, tanto no período colonial como no século XIX. Contudo, novas pesquisas têm demonstrado a presença constante de cativos nas unidades produtivas de predominância pecuária e, mais do que isso, sua importância central para o funcionamento dessas unidades. Esta comunicação busca unir-se a esses esforços, analisando a presença dos cativos na Campanha Rio-grandense, localizada na fronteira com as repúblicas platinas, principal zona de criação de gado da província do Rio Grande do Sul. Aqui, investigamos algumas das características demográficas da população cativa da região, além de aspectos relacionados às atividades desempenhadas por aqueles trabalhadores. Nesse último quesito, malgrado a conhecida visão que desacredita a importância do emprego de cativos na pecuária, o envolvimento direto no costeio do gado foi a principal atividade desenvolvida por aqueles trabalhadores. Nessas e em outras atividades, os escravos eram empregados, em geral, em associação com o trabalho livre nas maiores estâncias, e com o trabalho familiar nas unidades produtivas de menor vulto. As principais fontes empregadas aqui são os inventários post mortem e um censo agrário realizado em 1858.
 

Cesar Augusto Barcellos Guazzelli, UFRGS
Libertos e liberdade: os soldados negros da República Rio-Grandense
São poucos os trabalhos sobre a participação dos escravos na Revolução Farroupilha. Por outro lado, não há referências à importância que os libertos representaram para as relações externas estabelecidas entre os republicanos e seus vizinhos do Rio da Prata, nem quanto a sua presença perturbou as diplomacias do Império e da Confederação. Contribuir para uma melhor compreensão desta questão é o objetivo deste texto. 
Em relação aos soldados que formaram as fileiras da República Rio-Grandense, pode-se constatar que, ao contrário dos peões campeiros, para os quais seguir os patrões-comandantes era quase uma continuidade das atividades cotidianas, os escravos alforriados pagavam com o serviço militar a liberdade do cativeiro. Outra diferença dizia respeito ao lugar ocupado no exército rebelde: os peões livres eram destinados àcavalaria, a arma por excelência das guerras platinas; aos escravos – salvo aqueles que já detinham o estatuto de "campeiros" – destinava-se o serviço na infantaria, onde os riscos eram mais acentuados.
Já no que diz respeito às relações externas dos farroupilhas, a presença de libertos no exército farroupilha imbricou-se com as questões platinas em pelo menos três situações: a transferência de escravos para oEstado Oriental como uma estratégia de preservação da propriedade, quando a República solicitava aos seus cidadãos a cessão de cativos para suas hostes; o Tratado de San Fructuoso, que disponibilizou libertospara as tropas de Rivera, que preparava sua investida contra Rosas invadindo a província litoraleña de Entre Ríos; a pacificação e reintegração da província rebelde ao Império, com as temíveis conseqüências de uma eventual manutenção da liberdade dos cativos que haviam lutado pela causa republicana.
 

Regina Célia Lima Xavier, UFRGS
Deslindando a história  sobre a escravidão no Rio Grande do Sul
O trabalho que eu pretendo discutir neste II Encontro resulta de uma reflexão sobre a forma como a historiografia rio-grandense, na virada do século XIX e nas primeiras décadas do século XX percebeu o africano e seus descendentes e como avaliou sua importância na constituição do Rio Grande do Sul.  Qual o peso atribuído a escravidão, por exemplo, nos primeiros estudos científicos elaborados no interior do Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro? Qual a influência do debate sobre as raças, veiculado nos congressos nacionais organizados pelo IHGB no Rio Grande do Sul? São questões como estas que meu trabalho pretende debater.
   

Ivone Cecília D' Ávila Gallo, PUC/Campinas
Socialismo e escravidão: paradoxos do século XIX
O século XIX pode ser interpretado como o século em que as questões sociais ganham expressão e vulto. Este século de antagonismos produziu as misérias sociais e paralelamente um conjunto de idéias queobjetivaram saná-las. Entre os pensadores que operaram uma reflexão crítica sobre este momento histórico encontra-se Charles Fourier, preocupado, em plena época da Restauração, com a questão da liberdade, do livre arbítrio, da escravidão. A obra deste pensador teria influenciado significativamente o movimento operário na Europa até os anos 50 do século XIX e as suas reflexões serviram de inspiração para um grupo de operários franceses quedirigiram-se ao Brasil em 1840 e fundaram em Santa Catarina uma comunidade de tipo fourierista. O texto que apresentaremos visa discutir a teoria e a prática fourierista, o contexto europeu de desenvolvimento industrial e a sociedade brasileira escravista, ou melhor, a relação possível entresocialismo e escravidão (Brasil e América do Norte). Enfim, trata-se de um assunto complexo, pouco explorado, porém pertinente.
 

Carlos Engemann, UFRJ
Reflexões acerca de alguns elementos constitutivos da sociedade escravista no Brasil
Neste trabalho apresentamos uma reflexão de cunho histórico-sociológico a cerca da constituição da escravidão colonial. Para tanto, buscou-se inicialmente apontar o elevado grau de aceitação da escravidão noespaço ideológico colonial, confrontando-a com o surgimento de novas idéias pautadas na concepção iluminista de liberdade. Interessa-nos mostrar que no caso das sociedades chamadas de Antigo Regime, oslaços de solidariedade e de submissão desempenham um papel decisivo no posicionamento dos indivíduos na sociedade.
Trata-se, nesse caso, muito mais de grupos relacionados do que de indivíduos propriamente ditos. Levando isso às últimas conseqüências, podemos começar a entender por que a rebelião e o aquilombamento nãoforam as únicas posturas tomadas pelos escravos. Mais ainda, se torna factível, afastado o juízo de valor, os inúmeros casos de cativos que, saindo da sua desafortunada condição jurídica, tornaram-se tambémsenhores de escravos ou mesmo se ligaram ao tráfico.
Com vistas a reconstruir o espaço desta hegemonia, examinamos a instituição escravista sob a perspectiva identitária, desde a África até sua chegada à América. Objetivou-se, ainda, demonstrar que a escravidãoestava imbricada em um sistema hierárquico que açambarcava a sociedade colonial como um todo, não sendo dela uma apêndice, mas sendo apenas uma das faces de uma hierarquização fundamental. É, pois,necessário considerar que os indivíduos alcançados pelo infortúnio do cativeiro - e seguidamente do tráfico transatlântico - atravessaram todo um escopo de situações relacionais até chegarem à América e então se tornarem, em seus descendentes, crioulos.
Por fim, examina-se duas escravarias de grande porte em regiões distintas e com trajetórias semelhantes: Real Fazenda de Santa Cruz (1791) e San Miguel de Tucumán (1768). Nestas fazendas pretende-se observar, via padrões demográficos, similitudes e diferenças na constituição social de ambas. Trata-se de duas propriedades marcadas pelo trato religioso jesuíta e que na segunda metade do século XVIII apresentavam traços de crescimento endógeno.
 

Luiz Paulo F. Nogueról, UFRGS e Leonardo Monastério (UFPel)
Encruzilhada: contribuições da cliometria para responder a algumas indagações da historiografia nacional
A historigrafia norte-americana a respeito da escravidão sofreu uma revolução em meados da década de 70 quando dois acadêmicos, Robert Fogel e Stanley Engerman, publicaram o livro Time on The Cross. Nestaobra, foram lançados novos olhares por meio de um instrumental estatístico e econômico sofisticado sobre a história dos Estados Unidos a respeito de duas questões espinhosas: a Guerra de Secessão e aAbolição da Escravidão. Os resultados que encontraram foram perturbadores, isto é, verificou-se que os cativos daquele país não se encontravam na situação materialmente miserável que a historiografianormalmente lhe atribuiu; que a escravidão era economicamente eficiente e racional; que havia uma grande variabilidade do uso dos cativos; que a economia do Sul dos EUA não era tão ineficiente e pobre quantose imaginava; etc. O impacto de tais conclusões e argumentos no momento da publicação do livro foi enorme, pois vivia-se um dos mais explícitos conflitos raciais da história norte-americana e ambos os autoresforam acusados, dentre outras coisas, de racismo.No Brasil, a influência de tal obra, assim como do programa de pesquisa desenvolvido por Robert Fogel, dentre outros acadêmicos, foi mínimo, para não dizer nulo. Desta forma, ainda que o debate  historiográfico tenha sofrido transformações desde os anos 70, saindo de cena a história econômica e ganhando maior espaço outras linhas de pesquisa e abordagens, ascontribuições da cliometria tal como desenvolvida nos EUA foram poucas.Em um congresso como este, cremos que pode ser do interesse da comunidade acadêmica conhecer alguns dos resultados da historiografia norte-americana a partir da cliometria, assim como conhecer alguns dos resultados já alcançados pelo uso de métodos estatísticos e econômicos para a compreensão da História do Brasil e, em particular, para a História do Rio Grande do Sul.
 

  Júlio César Cóssio Rodriguez, UFRGS
Por uma História da África Pré-Colonial: Algumas considerações
A História da África, anterior ao mercantilismo e após o período pré-histórico, encontra-se em um momento de "redescoberta", no Brasil, devido a uma imposição legal, a partir da obrigatoriedade de inserção da História da África nos currículos escolares. Esta situação remete a um problema historiográfico, o qual o artigo pretende tecer algumas considerações. A História da África foi nitidamente construída a partir de sua relação à outrem – desta forma questões racistas podem ser consideradas dificuldades para um estudo da África Pré-Colonial. Outra dificuldade historiográfica é o acesso a fontes, devido a problemas climáticos de conservação de vestígios arqueológicos e a dificuldade de encontrar documentos escritos, tanto de viajantes árabes como de viajantes de outras regiões, como da China. E, ainda, o atual conflito entre as diferentes correntes teóricas, torna-se uma dificuldade, mas ao mesmo tempo uma possibilidade, para a História africana do período em questão -  devido à importância de relatos orais e da tradição oral dos griots africanos. Além do problema teórico da imposição de conceitos (normalmente construídos para a Europa) realizada por muitos estudiosos, os quais não percebem a historicidade dos próprios conceitos e a necessidade de problematizá-los (e não impô-los) para a História da África. 
A necessidade de estudo deste período histórico é notável, mas a precariedade das pesquisas, das publicações, das fontes, além das questões teóricas que permeiam este estudo, conferem uma dificuldade única ao estudo da História da África, que pode ser chamada de Pré-Colonial. A importância do artigo é levantar o debate em torno da necessidade de pesquisas mais efetivas sobre este período da História africana, para que este possa ser um campo de estudo próprio e único. Há no Brasil um interesse, de extrema importância, de alguns centros de estudo a respeito da História da África, porém, estas pesquisas (em sua grande maioria) se referem ao período colonial deste continente, devido ao estudo da escravidão africana no Brasil. No entanto, a relação entre o Brasil e a África está além da escravidão (apesar da inquestionável relevância dos estudos referentes à escravidão), devido às origens (resignificadas) étnicas e culturais do povo brasileiro, eminentemente, ligadas à África. Também, a importância do conhecimento da História da África Pré-Colonial está na necessidade de visibilidade desta por uma História Geral.
 

Gabrielle Werenicz Alves, UFRGS
A participação escrava na Revolução Farroupilha: análise historiográfica
O trabalho visa fazer uma análise do que foi escrito sobre a participação dos escravos negros na Revolução Farroupilha. A partir de um levantamento historiográfico, pretendo mostrar como os intelectuais de diversos períodos do século XX interpretaram questões como: qual foi o papel do negro na guerra, como estes foram recrutados, por que alguns lutaram ao lado dos farrapos e outros se renderam ao Império, quais as negociações feitas com os escravos e qual o fim destes ao término da guerra.
 

Maximiliano Mazewski Monteiro de Almeida, UFRGS
Escravos e Afro-descendentes na Historiografia oficial do castilhismo
Como prática historiográfica, entende-se o ato de escrita da história, determinado por seu lugar no tempo e no local do qual deriva. Para tal, há fatores que exercem o controle sobre aquilo que deve ou não ser escrito. Com o fim da Revolução Federalista(1893-95) e a vitória do Partido Republicano Rio-grandense tornou-se possível reorganizar o ensino público no Rio Grande do Sul(1897). O objetivo desse ensino era a aculturação cívica, que pretendia produzir uma versão definitiva do passado, através da historiografia destinada às escolas primárias. Uma série de livros de História e Geografia foram adotados oficialmente para o  ensino público. Entre eles estão História do Rio Grande do Sul para o ensino cívico(1898), de João Cândido Maia e Historia do Brazil, escripta para meninos, de João von FRANKENBERG.(1898.). Contudo, esses autores estão marcados por uma forte tendência depreciativa do papel dos africanos como agentes do processo histórico. Justificando, assim, o imperialismo europeu sobre a África e a escravidão nas Américas. Os indígenas do sul também foram descritos como uma "riqueza" ambicionada pelos "aventureiros" que os buscavam unicamente para o trabalho escravo. Ao excluir do seu projeto progressista a africanos e indígenas, a historiografia oficial dos castilhistas instaurou o privilégio do pertencimento étnico, juntamente com a religiosidade e a organização estatal, como um dos fatores determinantes do grau de civilização da sociedade. Quando são comparadas  essas práticas historiográficas mencionadas com documentos e relatos da Revolução Farroupilha(1835-45), faz-se evidente que a participação do escravo era imprescindível para a sustentar o esforço de guerra.
 

Mariana Selister Gomes, UFRGS
As representações em torno dos negros e o Primeiro Congresso de História Nacional do IHGB: uma análise do trabalho apresentado por Affonso Cláudio
O IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), fundado em 1838, pode ser considerado o marco da institucionalização da História no Brasil - anterior a História propriamente acadêmica das universidades. O Primeiro Congresso de História Nacional do IHGB, realizado em 1914, reunindo 96 trabalhos voltados à História do Brasil, é de extrema importância para a escrita da História deste país, por apresentar este objetivo, ter uma legitimidade científica e construir representações que se repetem na historiografia. Neste estudo analisar-se-á as representações em torno dos Negros construídas pelo trabalho apresentado por Affonso Cláudio "As tribos negras importadas; estudo etnográfico e sua distribuição regional no Brasil; os grandes mercados de escravos", na 3ª. Secção "História das Explorações Arqueológicas e Etnográficas" do Congresso em questão. A partir da recepção deste trabalho e suas representações, percebe-se a importância do Congresso e do IHGB na construção da História do Brasil. Isto justifica a análise detalhada de um dos trabalhos apresentados (o primeiro a tratar de algo relacionado aos Negros), na qual busca-se compreender quais as representações em torno dos Negros que envolvem a História do Brasil produzida. Nesta análise do trabalho apresentado por Affonso Cláudio buscar-se-á entender a recepção (entendida como ressignificação a partir do contexto brasileiro) das Teorias Racistas Européias do século XIX, as quais o autor faz referência. Compreender-se-á, também, o lugar do autor, para analisar sua obra. Partir-se-á do questionado e interpretação do Brasil do Primeiro Congresso de História Nacional (com as discussões do Código Civil, com a construção de uma História Pátria – a partir do branqueamento da sociedade brasileira, possível pela imigração), a fim de compreender quais os motivos, objetivos e conseqüências das representações construídas pelo trabalho em questão.
 

  Tathianni Cristini da Silva (Msc), UNIVEST/ FACVEST
Do edifício à cidadania: o patrimônio material e sua relevância para a conquista da cidadania pelos afro-descendentes de Lages/SC
Esta pesquisa visa discutir as implicações da construção de um espaço próprio para os enlaces sociais entre a população afro-descendente lageana e os demais segmentos sociais da região no decorrer do séculoXX, e seu esquecimento ou quase desaparecimento no século XXI. Nosso desejo está em perceber como um edifício destinado ao Centro Cívico Cruz e Souza, clube que se auto-intitulava dos "morenos" e queadquiriu notoriedade na região após sua fundação em 1918, pôde ter seu patrimônio em ruínas após uma história de importante colaboração para a inserção da população afro-descendente lageana nos diversosprojetos de inclusão social vigentes em diferentes governos nacionais. Estamos relacionando neste trabalho, que a pouco teve seu início, uma discussão entre o patrimônio cultural material perpassando a educaçãopatrimonial e sua importância para a inclusão e afirmação da cidadania, enquanto elemento básico a cada individuo. Para tanto, partimos da definição que muitos autores tem a respeito do que se entende porpatrimônio: como conjunto de bens materiais e não materiais que são relevantes para uma determinada comunidade, cidade, estado ou nação quanto a sua história, geografia, etc.; logo, é observável a relação que opatrimônio detém com a busca da cidadania que perpassa um reconhecimento do individuo conquanto cidadão que se vê na história, portanto em artefatos que o remetem a se perceber enquanto agente histórico.  
 

Diego Rodrigues, Ezequiel Giacomelli e Marcos Smith Dias, UFRGS
Elementos Comuns e Diferenças entre os Patrimônios Registrados na Pecuária Gaúcha e na Pernambucana no Início do Século XIX
Este artigo procura apresentar algumas comparações entre a pecuária escravista gaúcha e a pernambucana para a primeira metade do século XIX, assim como evidenciar as diferenças e semelhançasentre as composições dos patrimônios segundo inventários post-mortem entre as comarcas de Porto Alegre, Rio Pardo, Rio Grande e Pelotas. Verificou-se que a maior proporção da riquezainventariada, tanto no Agreste e no Sertão pernambucano, como no Rio Grande do Sul, estava alocada em escravos, em animais e em propriedades fundiárias, indicando uma forte semelhança social eeconômica, apesar da diversidade entre os pampas e a caatinga .
 

Jardel Gores, UNIVEST/FACVEST
A edificação da cidadania pela memória na cidade de Lages/SC.
Inicia-se o século XX, é um período de transformações políticas, indagações sociais e busca de auto afirmação e conhecimento na formação de uma identidade no contexto nacional. Assim, a cidade que hoje conhecemos por Lages foi elevada a esta categoria em 1820; o que posteriormente trará como conceito e palavra chave a modernização. Sendo o cidadão negro e mestiço, foco deste estudo; evidenciamos a construção do Centro Cívico Cruz & Souza, que tem sua fundação no dia 22 de setembro de 1918. É este novo espaço que proporcionará a estes cidadãos uma maior legitimação e organização perante esse período de identificações e de varias transformações sócias. É também esta edificação que buscará revitalizar o patrimônio cultural do povo negro e o impulsionará a criação mais efetiva de uma identidade local, através da rememoração de cultos, músicas, artefatos, e ainda de documentos e reuniões tanto de âmbito social como festivas. Desta maneira fica a reflexão; do fortalecimento da memória pela construção de um bem material.
 

Marcos Rafael da Silva, UNIVEST/ FACVEST
A formação patrimonial e a conquista da cidadania pelos afrodescendentes.
A abolição da escravidão no Brasil e a proclamação da republica mudaram drasticamente os rumos pelos quais o país vinha norteando seus caminhos. Precisou-se criar um novo imaginário sobre Brasil, sobre o brasileiro, e sobre nação afim de se  dar conta da nova conjuntura política, social e econômica que então se instaurava. E é em meio a essas tantas mudanças e necessidades, que o Centro Cívico Cruz e Souza, objeto desta pesquisa, foi criado. A entidade nasce em 1918, em Lages (SC). A convite do então prefeito Caetano Vieira da Costa, um grupo de afro-brasileiros inicia um movimento pelo qual objetiva-se organizar a comunidade negra lageana em uma associação. Tendo iniciado seu funcionamento em sala cedida por uma associação de músicos, logo se constrói o prédio-sede da entidade, revertendo em prática o imaginário daqueles que a idealizaram. Se é importante perceber quais foram os possíveis interesses das elites lageanas, representantes do poder estatal, na criação de uma associação destina aos afro-brasileiros recém incorporados à esta nação, não é menos importante verificar de que maneira, a construção do prédio, a organização da documentação, a criação de uma biblioteca etc, ou seja, a formação de um patrimônio,não só material, mas sobretudo cultural, serviu como instrumento de visibilidade e agente de legitimação do Centro, ao mesmo tempo em que proporcionou a ligação direta entre o imaginário cheio de ideais de pertencimento e cidadania que embalou os sonhos dos seus idealizadores e a sua efetivação prática.
 

Jean Carlos Antonio, UFSC
Fortuna e Cultura Material na Ilha de Santa Catarina: Freguesia de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão na segunda metade do século XIX.
O objetivo desta comunicação é apresentar o resultado parcial do trabalho de conclusão de curso da graduação em história. Através do inventário de um grande proprietário de terras, imóveis e escravos da Freguesia de Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão na segunda metade do século XIX, procuro fazer uma análise de sua fortuna e do conjunto de seus bens materiais. Esta pesquisa em torno da fortuna e cultura material através da análise do inventário possibilitada também perceber alguns mecanismos existentes nessa Freguesia. Um deles é o  funcionamento do mercado de abastecimento local e a contribuição da produção agrícola da Freguesia para as exportações de Santa Catarina. Nesse intuito, poderemos verificar o emprego da mão de obra escrava principalmente na área rural. Sendo assim, pretendemos desmistificar a idéia que na ilha só havia o trabalho doméstico e que o mercado de alimentos era excencialmente voltado para o abastecimento local.
 

  José Bento Rosa da Silva (UNIVALI)
Em águas do Atlântico sul: escravos-marinheiros no cais do porto de Itajaí (SC) no século XIX A comunicação investiga a presença de escravos marinheiros no cais do porto de Itajaí em diversas situações.Em 20 de maio de 1878, por exemplo, Joaquim José dos Santos,  capitão do Brigue Nacional Siqueira;procedente da corte, com carga para Itajaí, requereu do juiz municipal, Nicolau Malburg, da então Vila, o auto de interrogação de toda tripulação, por ter constatado roubo de mercadorias. Entre a tripulação compostade dez marinheiros, estavam quatro escravos, todos pertencentes a Vicente Haendchen. Eram o africano Manoel,  os crioulos Sérgio, Silvério e Pedro, todos da província de Santa Catarina.
O capitão, no auto de perguntas, afirmou que " o fato criminoso se deu pela tripulação do navio do seu comando e na viagem do Rio de Janeiro para este porto, não podendo declarar em que dia teve começo o arrombamento dos volumes roubados, porque só depois de chegar a este porto é que teve conhecimento de ter havido esse crime por parte de seus marinheiros" Outros processos crimes estão envolvidos escravos e libertos, todos marinheiros, em brigas à beira do cais, por razões diversas, inclusive disputando o prazer das mulheres da beira do cais. Seguindo as sugestões metodológicas de Ginzburg, os processos serão analisados à luz do paradigma indiciário, visando conhecer os meandros do cotidiano destes marinheiros negros.
 

Beatriz Ana Loner, UFPel
Antônio: de Oliveira a Baobad
A comunicação  descreverá a trajetória de Antonio Baobad e  de seus amigos,  na Pelotas de final do século XIX.  Ex-escravo que comprou sua liberdade e  foi liderança  operária e étnica, fazendo parte do grupofundador  do jornal A Alvorada, sua biografia nos permite perceber as perspectivas possíveis para o grupo  negro da região após a abolição. Sendo  incomum, sua trajetória explora ao máximo as potencialidadesabertas com a libertação dos trabalhadores em 1888, ao mesmo tempo que configura algumas das limitações que enfrentaram, em sua tentativa de integração a sociedade branca e capitalista.   Segue abaixo umbreve resumo de sua biografia, que servira como guia da comunicação, embora a mesma seja suficientemente ampla para permitir caracterizar outros integrantes do(s) grupo(s) de que Baobad participou.
 Antonio Baobad (de Oliveira) membro da União e Fraternidade dos Operários Chapeleiros de 1886, vice-presidente da mesma em 1887, secretário da Feliz Esperança, em 1884/1885. Participa da chapaReformadora (socialista) da Liga Operária em 1893. Membro da 1ª direção da União Operária Internacional de Pelotas, como seu presidente. Foi  orador da direção provisória do Centro Operário 1º de Maio, dePelotas, fundado em agosto  de 1898. Nascido escravo, comprou sua liberdade, e estudou na escola da Biblioteca Pública, assinando-se como Antonio de Oliveira. Aproximou-se de grupos republicanos, depois os seguiu em seu desencanto pela república e na descoberta da ideologia socialista, mas, desiludido com as pessoas em geral, terminou sua vida reivindicando uma identidade étnica como Antonio Baobad, forteárvore de grossas raízes africanas.  Presumível irmão de Rodolpho Xavier, foi redator do jornal Alvorada, preceptor dos irmãos Penny e morreu em 1907, com idade aproximada de 49 anos.
 

Henrique Espada Lima (UFSC)
"As várias faces da precariedade: para uma história comparativa da escravidão e da liberdade no século XIX"
A universalidade do tema "trabalho" sugere fortemente uma abordagem comparativa em vários planos. Tomando as sociedades escravistas das Américas, a escravidão e o trabalho escravo foram, não por acaso,objeto de importantes estudos desse gênero. De fato, abordagens comparativas estão na origem de alguns dos principais debates sobre a escravidão nas Américas, seja tratando das diferenças de carátereconômico ou religioso, ou as diversas tradições jurídicas no que diz respeito à escravidão (com o conseqüente acesso desigual a alforrias e manumissões, etc). A partir daí há todo um campo de estudos que vaidesde as formas distintas de escravidão até o tema das relações "raciais" e do lugar dos ex-escravos e seus descendentes nas sociedades pós-abolição.
Se tomarmos o século XIX, o último século da escravidão nas Américas, a oposição entre "trabalho escravo" e "trabalho livre" articula um campo de estudos comparativos definido e importante. Recentemente, oestudo das sociedades no pós-emancipação vem ganhando ainda mais relevo, na medida em que articulam questões centrais como: relações raciais, cidadania e direitos políticos, etc. O tema da experiência do "trabalho" sob o regime da escravidão e da liberdade parece ter, entretanto, um espaço menor. Não por acaso, há ainda uma lacuna a ser preenchida no que diz respeito aos diálogos entre a historiografia daescravidão e a historiografia sobre o trabalho no século XIX. O tema desta apresentação é precisamente abordar esse hiato, explorando-o sob dois pontos de vista complementares: O primeiro, historiográfico, tentando mapear as questões que aproximam e separam os dois campos de estudo. O segundo, fundamentado na pesquisa, tenta discutir um terreno comum para uma discussão comparada, tomando a vivência da "precariedade" como o solo comum que permite abordar a diversidade de experiências que escravidão e liberdade comportavam neste período.
 

Adhemar Lourenço da Silva, UFPel
Escravidão, liberdade e cor nas sociedades de socorros mútuos (Rio Grande do Sul, 1856-1914)
As sociedades de socorros mútuos são "associações formadas voluntariamente com o objetivo de prover auxílio financeiro a seus membros em caso de necessidade" (Linden) e se disseminaram no Rio Grande doSul desde pelo menos 1854. A comunicação pretende exibir as interfaces dessas associações com os demais conteúdos em epígrafe. Argumento que, por padrão, os escravos estão tendencialmente excluídos de se associarem por duas razões: por não terem uma expectativa de descenso social contra o qual precisariam se securitizar; e por não operarem no mercado. Para o Rio Grande do Sul, especificamente, não foi encontrado nenhum caso em que escravos estivessem mutualizados. Contudo, esse não era um tema de pouca importância para esse tipo de associação, porque, uma vez libertados, as duas razões que os excluiriam evanescem. Com efeito, várias associações no Rio Grande do Sul refletem sobre a capacidade dos ex-escravos gerirem associações, comprometem-se com emancipações, participam ou  sofrem os efeitos da campanha abolicionista, e se interrogam sobre os efeitos da cor da pele na "dignidade" pretendida daqueles que se associavam.
Não se deve pensar que as sociedades de socorros mútuos sejam apenas mais um tipo de associação afetada pela escravidão, porque a sobra de caixa do Centro Abolicionista em Porto Alegre foi distribuída, emmaio de 1888, à Santa Casa de Misericórdia, Hospício São Pedro, Asilo de Mendicidade e outras 5 mutuais. Os marcos inicial e final da comunicação referem-se à primeira entidade fundada na qual se reconhece a participação de negros (a Sociedade de Beneficência Porto-Alegrense) e a dois casos envolvendo divergências sobre a participação de negros em mutuais (Bürgerklub e Vittorio Emanuele, em Porto Alegre).  

  Márcia Naomi Kuniochi (FURG)
O perfil social dos escravos em Rio Grande, século XIX
A Cúria Metropolitana do Município de Rio Grande preservou os livros de batismo e óbito dos escravos da região, desde a fundação da cidade, em meados do século XVIII, que estão, inclusive, microfilmados. Olivro de batismo apresenta dados sobre: data do batismo, filiação, nação dos pais e padrinhos; por sua vez, o livro de óbitos fornecem informações sobre: data da morte, idade, nação e causa. As informações de nascimento e morte estão vinculadas ao nome do respectivo proprietário.
A quantificação das informações coletadas fornece indicadores relevantes para se construir um perfil dos escravos registrados nas paróquias da região. Por meio da sistematização e cruzamento dos dados épossível avaliar as características da população escrava da região, cujos plantéis estavam dispersos, seja nas mãos de proprietários ligados tanto ao meio rural seja no setor urbano, para atender às necessidadesda vila fronteiriça e portuária: como sede militar do extremo sul do Brasil e última base mercantil do país para intermediar o comércio com o Rio da Prata.
Para caracterizar melhor a população escrava, uma outra fonte vai retratar com mais clareza as atividades do cativo: os anúncios de compra e venda, coletados de jornal local, de meados do século XIX, que traz,além da nação e idade do escravo, as profissões exercidas tanto pelo homem como pela mulher cativa.
O estudo  operacionaliza uma metodologia de exploração de tais fontes primárias que nos permitem leituras transversais sobre as relações entre senhores e escravos  e contribui desse modo para a historiografia daescravidão no Brasil Meridional, de inúmeras  experiências históricas e necessitam de maior visibilidade na historiografia brasileira, ainda focada nos grandes centros econômicos  agro-exportadores e  de " plantation" .
Esses dados nos permitem traçar um perfil ainda preliminar do escravo em Rio Grande, no século XIX, identificando características das relações entre senhores e escravos, as condições de vida e trabalho, assimcomo doenças que mais os acometiam e o o nível  de opressão e de violência dessas relações. Também leituras sócio -culturais pela  reprodução de práticas culturais de seus senhores como o batismo eincorporação  de nomes cristãos
 

Albertina Lima Vasconcelos, USP
Tráfico interno, liberdade e cotidiano de escravos em Rio Grande –RS, no século XIX
A comunicação  tem como objetivo apresentar resultados de pesquisas sobre aspectos do tráfico interno de escravos, ou tráfico interprovincial, especificamente  dos que tiveram como rota de chegada o Rio Grandedo Sul, no século XIX, e algumas  experiências de  luta e resistência contra a escravidão e de práticas sócio-culturais cotidianas.
Essa comunicação traz como contribuição ao debate sobre escravidão  uma reflexão sobre aspectos do tráfico e  ressalta a importância de estudos que  revejam as análises que identificam   o tráfico na suavertente interna  como conseqüência da  Lei de  abolição do Tráfico 1850. Os dados das pesquisas demonstram que esse processo  interno  existiu antes  dessa data, mesmo que com menor dinâmica. O RioGrande do Sul, mais precisamente a cidade de Rio Grande foi um desses destinos de escravos que vinham do nordeste, no caso da Bahia e de outras Províncias.
A abordagem  referenciada  na  História Social e na História Econômica se baseou na exploração de fontes primárias como  livros de Passaportes, e Jornais. Também permitiu  realizar leituras que identificam anecessidade de debate em torno dessa questão, pois como está consagrado nos livros didáticos uma certa  idéia de fixação permanente de escravos desembarcados nos portos de Salvador, Recife e Rio de Janeiroconduz a uma interpretação de uma fixação natural desses  escravos que teriam permanecidos " para sempre",  nessas regiões. Tona assim, também  obscura a  percepção de outra dinâmica interna do tráfico; minimiza o impacto sócio-cultural  das relações interétnicas; os contatos e interferências nas relações cotidianas pela movimentação continua de entrada e saída de escravos tanto por terra e por mar e em váriasdireções geográficas em todo o Brasil.
 O tráfico interno possibilitou esse movimento  itinerante de mão-de-obra escrava , num processo de migração involuntária e  simultaneamente a essas levas cotidianas de gente em movimento, levas também derecriação de formas de viver e sobreviver ,  também se  mesclavam  valores ,cultura e suas práticas.  Os dados apurados desse processo de transferência de mão-de-obra escrava da Bahia para o Sul, do séculoXIX,  ao coligirmos  informações sobre nome, origem, por vezes idade, sexo, etnia, assim como os procuradores e os proprietários,essas informações permitem traçar um perfil de escravos  oriundos da Bahia parao Rio Grande do Sul entre 1800 e 1850. Podemos afirmar que a experiência escravista no Brasil foi responsável pela constituição de uma sociedade estratificada, hierarquizada e construída com base na exploraçãode mão-de-obra escrava  e, em maior ou menor grau marcada pela herança  africana.
 

Ricardo De Lorenzo (UFRGS)
Sobre a insanidade mental entre cativos e libertos (Porto Alegre, século XIX)
Partindo da leitura sobre a discussão política e sobre as fontes médico-institucionais, policiais, judiciárias e jornalísticas, procuro cercar o universo de alienados, decreptos e suicidas que circularam pelas ruas e pelas instituições de acolhimento de Porto Alegre durante a segunda metade do século XIX. Meu objeto de estudo se recorta sobre os escravos, africanos ou crioulos, e sobre os negros livres ou libertos nestascondições, ou seja, identificados como insanos pelas diversas autoridades públicas ou pela incipiente medicina.
O problema central que apresento refere-se à seguinte indagação: qual a lógica inerente aos comportamentos de cativos e libertos dito insanos e, por contrapartida, quais as situações e critérios que levavam à classificação desses indivíduos como insanos?
Essencialmente, importa-me saber qual era o perfil social e comportamental dos escravos e libertos em questão: qual a sua origem (africana ou crioula), a quem pertenciam ou sob quais condições foram alforriados,quais as suas idades, sexo, situação familiar e laboral? Qual a sua representatividade no universo dos "insanos"? Qual a trajetória desses negros cativos, livres e libertos, anteriormente e já dentro dos mecanismosde exclusão que se acionavam como resposta às suas manifestações mentais? A perspectiva de análise das formas de controle / tratamento que sofriam sugere indagações sobre como os negros reagiam ou se articulavam em estratégias que lhes permitissem amenizar ou superar esse enquadramento. Há sempre uma nova estratégia ou se reproduz ou potencializa uma prática costumeira criada ou herdada? Pode-secompreender o comportamento considerado anormal dentro de uma lógica própria que se explica pela experiência sócio-cultural dos negros, extrapolando o diagnóstico circunstancial da autoridade, seja pública oumédica, ou mesmo em contraposição a outros grupos sociais que também sofriam o apartamento social por alguma manifestação de insanidade? O que dá especificidade aos negros nesse processo? Há variação de seu comportamento ao longo do tempo?
Além disso, um contraponto complementar aos ditos insanos parece-me pertinente, pois se verificamos um modelo de controle social baseado na prevenção ou resposta ao comportamento considerado anômalo -passível de afastamento da relação social cotidiana a partir de uma classificação, geral, de "insanidade" -, interessa saber em que grau esse controle prendia-se ao arbítrio da autoridade "de plantão" ou adotavam-se os preceitos médicos que no decorrer do século XIX passaram a ser considerados "científicos". Na análise de quem cabia recolher esses indivíduos percebidos como fator de perturbação, qual sua visão própria emrelação ao problema específico dos cativos e dos libertos e como ela se altera ao longo do período? O quanto isso influi na trajetória dos "enquadrados"?
 

Nikelen Acosta Witter (UFF/RJ e UNIFRA/RS)
Negociando cuidados e liberdades: as práticas de saúde, doença e cura entre senhores e escravos (RS, Século XIX)
Esta comunicação tem como objetivo propor um debate acerca do estudo das práticas de saúde, doença e cura como um espaço de interessante valor histórico para a observação das tensões, conflitos e negociações entre senhores e escravos no século XIX. Nas pesquisas que têm sido realizadas sobre o cotidiano dos habitantes da província do Rio Grande do Sul, as referências aos embates em torno dasquestões de saúde são bastante comuns. Um olhar mais atento à documentação levantada por diferentes historiadores, no entanto, tem revelado um universo de tensões que extrapola as perspectivas que até agorase debruçaram apenas sobre os conflitos e solidariedades estabelecidos entre os curandeiros negros (escravos ou não) e suas clientelas. Nesse sentido, uma análise da experiência da enfermidade tanto deescravos quanto de senhores e das relações que a partir daí estes estabeleciam entre si pode revelar um outro aspecto da experiência dos cativos. De fato, o cuidado das moléstias era um ponto importante de negociação entre senhores e escravos nesta sociedade. Processos-crimes, artigos de jornais, cartas particulares, inventários e testamentos dão conta das complexas interações sociais que se estabeleciam quandosaúde era um dos fatores em jogo. Dentro deste quadro, é também importante que se perceba que a doença, por vezes, podia representar algo além do sofrimento. Numa sociedade desigual, hierarquizada e violentacomo a do Brasil do século XIX, adoecer ou simular uma doença poderia angariar para seu portador/ simulador ganhos secundários que iam desde simpatias por sua condição até o alcance de certas liberdades oupelo menos de "zonas de respiro" ou espaços para a negociação dentro do afã dos afazeres diários.
  

Roger Elias (UFRGS)
Famílias escravas em Porto Alegre (1810-1835). Uma história de suas formações
A escravidão é um dos traços mais determinantes da história nacional, e também um dos mais discutidos pelos historiadores. A historiografia dedicada à escravidão no Brasil Imperial tem, há muito, debatido intensamente a condição social do escravo. Porém, esta é uma discussão que está longe de ser encerrada. Desde as afirmações em prol do que se chamou de "democracia racial" nos anos 1930, até as pesquisas sobre as famílias escravas a partir da década de 1980, passando pela idéia de "reificação do escravo", defendida pela chamada Escola Paulista de Sociologia, a dianteira dos debates já oscilou entre extremos opostos. Referindo-se mais diretamente à temática da formação das famílias escravas (foco da presente pesquisa), trabalhos que tiveram por objeto áreas do centro do país dedicadas às plantation de cana-de-açúcar e café revelaram, com base numa extensa base documental, que para tais áreas era recorrente a presença de famílias escravas nos plantéis. Tal constatação ensejou questionamentos diversos, tendo destaque especial o debate sobre o significado dessas famílias para escravos e senhores, ou seja, a existência dessas famílias enquanto estratégia de emancipação dos escravos ou de dominação por parte dos senhores. A presente pesquisa em andamento tem por mote investigar a formação das famílias escravas em Porto Alegre no período de 1810 a 1835. O marco temporal pretende permitir a análise da condição das famílias escravas num período dinâmico do município, desde quando este ascende à condição de vila até o cerco farroupilha de 1835. Além disso, estão já presentes no período duas realidades distintas: além da grande zona rural, um pequeno núcleo urbano, limitado à península correspondente à zona central do município, configura um contexto com cenários diversos, de forma a tornar possível, esperamos, conclusões sobre as peculiaridades das famílias escravas nesses dois ambientes. Finalmente, pretende-se chegar a resultados que possibilitem fazer comparações pertinentes com os resultados de pesquisas levadas a cabo no sudeste do país.
 

Edson José Neves Júnior (UFRGS)
Reprodução Natural e Famílias Escravas em Porto Alegre – 1840 – 1865.
A presente comunicação tem por objetivo apresentar pesquisa em desenvolvimento tratando da reprodução natural da escravaria porto-alegrense em meados do século XIX, portanto, trabalho no campo da históriademográfica. Procurarei averiguar se a reprodução vegetativa da população escrava desta cidade conseguiu supriu devidamente a demanda exigida pelo mercado e manter o contingente populacional mancípio proporcionalmente idêntico nos períodos pré e pós-tráfico.
Tenho também por meta desvendar como essa reprodução se deu, ou seja, quais arranjos familiares foram possíveis dentro da lógica do cativeiro desta região e que tipo de laços de solidariedade esses cativoscriaram, através da reprodução de sua família.
No período recortado observa-se no Brasil o fim do tráfico, tornando possível averiguar o seu impacto na  população cativa porto-alegrense. Bem como, aborda um período anterior à Guerra do Paraguai, o queimplica em um período de relativa paz para a população, tornando as análises demográficas que pretendo realizar mais confiáveis, pois homens, principalmente escravos, não foram convocados para a guerra.
As fontes com que trabalho são basicamente duas: registros paroquiais de batismo, casamento e óbitos e inventários post-mortem.
 

Denize Aparecida da Silva (UFPR)
Arranjos e laços familiares na comunidade escrava da Freguesia de Nossa Senhora da Graça de São Francisco do Sul/SC (1845/1888).
As pesquisas sobre a família escrava apontam para a idéia de que nos grandes cativeiros havia maior possibilidade de constituição dos laços familiares, principalmente nos que diz respeito às famílias legítimas. Eainda que pela manutenção da família escrava era possível estabelecer uma situação de paz no cativeiro. Por outro lado é colocado que a família escrava poderia significar uma forma de desestabilizar as relaçõescomunitárias, pois na busca de negociar com o senhor, o escravo acabava colocando seus interesses pessoais em detrimento do grupo. Porém se pensarmos em laços familiares mais amplos, aqueles queenvolviam parentesco consangüíneo e espiritual, então pode-se pensar que a comunidade escrava possivelmente tinha vantagens com esta organização.
O estudo sobre a freguesia Nossa Senhora da Graça buscou analisar as relações sociais nos plantéis para responder sobre a organização, manutenção e estratégias da família escrava, no período de 1845 a 1888. As características da escravidão na referida freguesia apontam para plantéis relativamente pequenos e com escravos na sua maioria crioulos.
Para a realização do trabalho foram lidos Registros de Batismo e Processos de Inventários, foram analisadas as informações e também foi feito cruzamento dos dados apresentados na respectiva documentação. Ao longo do tempo com o qual é trabalhado na pesquisa foi observada a trajetória de determinadas famílias. Outra preocupação foi conhecer a organização de grandes famílias, (casais e mulheres que batizaramcinco ou mais filhos), bem como as estratégias para continuidade das famílias diante de situações de perigo como nos processos de inventários.
Pede-se pensar que os arranjos de parentesco provavelmente ampliavam as redes de solidariedade e conseqüentemente minimizavam os percalços da vida em cativeiro na freguesia estudada. Muito emboraconstituir uma família e mantê-la ao que parece não foi uma tarefa fácil para os cativos. Portanto os escravos precisavam construir mecanismos para burlar os obstáculos que a condição no cativeiro lhes impunha. Daí prefere-se acreditar que a organização da família escrava tinha um sentido que envolvia interesses e desejos tanto dos escravos como dos senhores.
 

  Gabriel  Santos Berute (UFRGS)
A concentração do comércio de escravos na capitania do Rio Grande de São Pedro do Sul, c. 1790 – c. 1825.
O Brasil foi o maior importador de escravos africanos nas Américas e o porto fluminense o principal responsável pela redistribuição dos cativos na Colônia. Neste contexto, o Rio Grande do Sul colonial participavasomente do tráfico interno de escravos, sendo tributário do tráfico atlântico. Tendo em vista a falta de estudos relativos à importação de cativos para o extremo sul da América portuguesa, o presente trabalhopropõe-se a iniciar a caracterização de tal comércio. Para tanto, procurou-se definir as características principais de funcionamento do circuito mercantil do tráfico de escravos sul-riograndense: tamanho dos envios,número de traficantes que atuaram no período estudado, concentração do tráfico de escravos (total de escravos transportados por cada traficante e em cada envio), a freqüência com que atuavam e o tempo depermanência dos comerciantes na atividade. As fontes utilizadas foram as "guias de transporte de escravos", pertencentes ao Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e os "despachos de escravos", que se encontram sob a guarda do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. A partir do tratamento quantitativo das informações contidas nas fontes verificou-se que, embora participando apenas de sua etapa interna, o tráficode escravos do Rio Grande do Sul apresenta características semelhantes àquelas observadas no tráfico atlântico de escravos: era um comércio composto por um grande número de comerciantes não-especializados, "traficantes eventuais", sujeitos às flutuações conjunturais que determinavam a sua permanência ou não em tal atividade comercial. Estes traficantes não-especializados eram responsáveis pelacomercialização de uma parcela importante do total de escravos. Por outro lado, um pequeno número de grandes comerciantes controlavam o mercado negreiro ao transportarem a maioria dos escravos importadospara a Capitania em questão.
 

Rafael da Cunha Scheffer (UFSC)
Tráfico interprovincial e comerciantes de escravos em Desterro/SC (1849-1888)
Em outubro de 1884 desapareceu em Campinas um comerciante que havia saído de Desterro, em Santa Catarina, para cobrar dívidas nesta cidade paulista. Seu nome era Manoel Antonio Victorino de Menezes, umnegociante de escravos que, descobriu-se depois, foi assassinado nesta viagem. Nossa análise de suas atividades em vida e de sua morte nos ajuda a entender melhor como se deu a dinâmica do tráfico interno deescravos na capital da província catarinense.
Na pesquisa sobre o tráfico interno de escravos em Santa Catarina após 1850, são questões importantes o volume de saída de escravos, o funcionamento deste comércio e seus agentes. Desterro, porto deescoamento da produção de uma região voltada para a economia de abastecimento, viu um certo número de escravos exportados para áreas cafeicultoras. O volume deste tráfico, a partir da pesquisa até agoraempreendida, é relativamente pequeno.  De toda forma a questão de como se realizava este comércio ainda precisava ser esclarecida. E é aí que encontramos a figura do senhor Victorino de Menezes.
Considerado por autores tradicionais de Santa Catarina (Walter F. Piazza e Oswaldo Cabral) como o maior comerciante de escravos da província, Victorino se torna um excelente ponto de referência paraanalisarmos a participação de Santa Catarina no tráfico interno.  A própria chegada de Victorino parece ter estado ligada a este comércio, desde seu estabelecimento na cidade em 1868. O objetivo destacomunicação, é analisar o funcionamento do tráfico em Desterro através da vida de Victorino, da construção de seus laços e relações comerciais como negociante de escravos em Desterro e a forma como se davam seus negócios, circunstâncias que podem estar associadas a sua morte.
 

Ana Flávia Cicchelli Pires (UFF)
Subterfúgios e novos padrões de organização no tráfico ilegal de escravos: o caso do brigue Asseiceira.
Diversas medidas foram sendo estipuladas gradativamente aqui no Brasil, desde 1810, com o objetivo de abolir o comércio atlântico de escravos. Contudo, este continuou em atividade após 13 de março de 1830,data marcada para o seu fim segundo Convenção de 23 de novembro de 1826, acordada entre o Brasil e a Grã-Bretanha. Os esforços para conter o tráfico de africanos foram poucos e insuficientes, encontrandoapoio nas populações locais e fácil mercado. Os traficantes continuaram em ação através de um sistema de contrabando, com a conivência do governo e das autoridades brasileiras, cabendo à Inglaterra o papel devigiar, reprimir e exigir o cumprimento dos tratados e convenções firmados. Do total de africanos trazidos para o Brasil em trezentos anos de tráfico atlântico, aproximadamente 20% chegou entre 1831 e 1855. Talpercentagem demonstra quanto o tráfico ilegal foi importante, principalmente se comparado ao período total de tráfico atlântico para o Brasil. Sendo assim, esta comunicação tem por objetivo analisar o período da ilegalidade do comércio de escravos para o Brasil através do Atlântico, ressaltando uma característica em especial, que diz respeito ao redirecionamento dos embarques na costa Centro-Ocidental africana. Através desta análise poderemos perceber a flexibilidade do tráfico ilegal, em função da necessidade de estar sempre adotando novasestratégias para contrabalançar a intervenção britânica e as leis que foram sendo acordadas visando seu fim. O contrabando de africanos constituiu-se enquanto um negócio lucrativo e capaz de mobilizarimportantes interesses, desenvolvendo uma lógica de funcionamento e organização.
 

Beatriz Gallotti Mamigonian (UFSC)
O litoral sul do Brasil na rota do abolicionismo britânico, décadas de 1840 e 1850.
Este trabalho procura colocar o litoral catarinense no mapa da repressão ao tráfico atlântico de escravos na primeira metade do século XIX e revelar alguns contornos da pouco conhecida "conexão brasileira" da política de recrutamento de trabalhadores para as colônias britânicas. A partir de episódios de apreensão de barcos aparentemente envolvidos na navegação de cabotagem por um cruzeiro britânico no litoral de Santa Catarina em julho de 1851, a comunicação aborda as evidências da ocorrência de tráfico ilegal nesta região, a forma da repressão britânica ao tráfico atlântico nas décadas de 1840 e 1850, e o contexto ao qual estava associada, o de recrutamento de trabalhadores para as colônias britânicas do Caribe. Nestes casos em estudo, ao oferecer liberdade para os tripulantes escravos da embarcação apreendida, o capitão do cruzeiro da Marinha Real Inglesa abriu mais uma rota de fuga para os escravos descontentes, que por vezes já fugiam em navios mercantes ou baleeiros. Em inúmeros outros casos registrados na década de 1840, as apreensões de navios engajados no tráfico de escravos "desviavam" os escravos que estavam a bordo para as colônias britânicas. Esta política britânica de recrutamento de trabalhadores a serem emancipados e engajados por contrato no Caribe esteve associada à da repressão ao tráfico de escravos a partir do fim da década de 1830 e atingiu Cuba, Brasil e Serra Leoa.
 

  Martha Daisson Hameister, UFRJ
Famílias riograndinas livres e seus escravos através dos registros batismais: unidades oiconômicas (Rio Grande c. 1738-c.1763)
Através do estudo intensivo dos registros batismais, vêm-se trabalhando as relações entre os agentes históricos através do compadrio. Isso possibilitou identificar as relações de compadrio de algumas famíliaslivres e suas escravarias. Diferente do que é encontrado em estudos sobre compadrio, os analisam os estratos sociais em separado, este trabalho pretende, através de alguns casos específicos, apontar asrelações tanto da família proprietária de escravos como das famílias de seus escravos, comparando a malha de compadrio desses dois setores sociais que coexistem em uma unidade doméstica. Os resultadosapontam, ainda que os compadrios de cada setor tenha características peculiares, padrões coincidentes nos dois estratos. Com isso, buscam-se elementos para repensar o funcionamento destas unidadesdomésticas que são complexas unidades econômicas hierarquizadas, como toda a sociedade o era, e que contém em seu interior gente de diferentes estatutos sociais. Talvez modifique-se a idéia da abrangência da família setecentista nesta região, incluindo nela um setor muitas vezes dito como "excluído" socialmente. Como decorrência dessa reflexão, há a sugestão para que se repense a própria "economia" da localidade, indo ao encontro da idéia de uma oiconomia, conforme conceituado por Bartolomé Clavero.
 

Maísa Faleiros da Cunha, Unicamp
Uma tentativa de reconstituição de famílias escravas. Franca (SP) - Século XIX
Os estudos de cunho histórico-demográfico, especialmente a partir dos anos 1980, trouxeram à tona vivências insuspeitadas, tais como o estabelecimento de laços de parentesco consangüíneo e fictício entre oscativos. Após o reconhecimento da presença da família escrava no passado brasileiro, atualmente, a questão que se tenta responder remete ao maior entendimento das dificuldades e possibilidades de constituiçãoe manutenção destas famílias. A fim de ampliar o conhecimento sobre este tema, nosso estudo focaliza a população escrava em um município no norte paulista (Franca) que se caracteriza por apresentar uma economia voltada para o abastecimento interno em um momento de expansão da agricultura de exportação na Província de São Paulo (século XIX). Procuramos destacar as possibilidades para a reconstituição de famílias escravas a partirde duas fontes documentais: a Lista Nominativa de Habitantes de 1835-1836 e os registros paroquiais (de batismo e casamento relativos a escravos). Ao realizarmos o cruzamento dos registros de batismoocorridos próximo à data da Lista Nominativa de Habitantes (1835) encontramos o fogo de Francisco Barboza Sandoval, que levou ao batismo Raimundo, Reinaldo, Roza filhos de um casal de escravos de suaposse. De acordo com a Lista Nominativa, este senhor era proprietário de 12 escravos, dentre eles Francisco e Eufrazia, pais dos três escravinhos. Esta família escrava estava presente no fogo de Francisco Sandoval, mas não houve qualquer menção ao parentesco destes cativos por parte do recenseador. Esperamos apresentar um quadro mais claro sobre a família escrava em um contexto econômico ainda poucoanalisado pela historiografia.
 

Fernando Franco Netto, (UNICENTRO/ PR).
Compadrio e Escravidão em Guarapuava no século XIX
O presente trabalho tem como objetivo conhecer as relações de compadrio dos escravos na região de Guarapuava no período 1810 a 1888. Área esta de recente povoamento e com características bastanteespecíficas quanto ao processo de ocupação e de desenvolvimento de sua economia, haja vista que sua formação esteve ligada à criação e comercialização de gado e a lavoura de alimentos. As especificidadeslocais determinaram uma população cativa muito pequena e na sua grande maioria crioulos. Provavelmente, Guarapuava não esteve na rota do tráfico internacional de escravos, como também no pesado tráficointerno. A sociabilidade dos escravos será tema desta pesquisa a partir dos registros de batismos de cativos e de ingênuos, bem como do cruzamento dos dados com os inventários de alguns proprietários. Apesarde uma população pequena é forte a presença da família escrava em Guarapuava. Os arranjos e laços promovidos pelos escravos demonstram que o compadrio serviu como estratégia para fortalecer as relações dacomunidade. O número de padrinhos livres foi predominante em Guarapuava, e mais, com forte participação dos senhores e seus familiares nessa rede de relações.    
   

Maria Angélica Zubaran, ULBRA
Os escravos e a lei de 7 de novembro de 1831 no Rio Grande do Sul (1865-1888)
O trabalho que se segue propõe-se a examinar as Ações de Liberdade no Rio Grande do Sul  que tiveram como referência legal a Lei de 7 de novembro de 1831. Trata-se de investigar como os curadores riograndenses e os escravos, seus curatelados, apropriaram-se de um discurso legal considerado "letra morta", uma lei que jamais fora cumprida mas tampouco fora revogada e a utilizaram em defesa da liberdade. Por outro lado, interessa-nos explorar as diversas interpretações da Lei de 1831 pelos curadores riograndenses, tanto no caso dos escravos africanos entrados no Brasil após aquela data, como no caso de saída de escravos do Império para países onde a escravidão já fora abolida, o que constituiu uma especificidade das Ações de Liberdade no Rio Grande do Sul. Na verdade, a localização fronteiriça da província do Rio Grande do Sul com países do Prata facilitou aos escravos gaúchos, residentes nessas cidades, pleitear sua liberdade quando retornassem ao Brasil após ter residido temporariamente no Estado Oriental do Uruguai ou na Argentina, acompanhando seus senhores. Também o contexto da Guerra do Paraguai (1865-1870), na qual muitos escravos gaúchos participaram como substitutos ou como voluntários, revelou a resposta rápida de escravos e curadores riograndenses atentos às brechas da jurisprudência e às novas possibilidades de defesa da liberdade para escravos que temporariamente residiram no Paraguai. Nosso objetivo é, por um lado, enfatizar o aspecto político dessas iniciativas legais do(a)s escravos(as) no processo de emancipação gradual no Rio Grande do Sul e, por outro lado, destacar que o acesso dos escravos à justiça possibilitou-lhes o desenvolvimento de novas táticas de luta que resultaram em uma crescente capacidade de defesa de seus interesses e, particularmente, da sua liberdade. Ao utilizarem-se da Lei de 1831 contra seus senhores, os escravos desafiaram o "direito" de propriedade dos senhores e as relações de dominação escravista.
 

Ricardo Tadeu Caíres Silva, UFPR
Memórias da travessia: aspectos do tráfico internacional de escravos para o Brasil nas falas dos cativos que disputavam suas liberdades na Justiça. Bahia (1884-1888)
 Neste texto procuro discutir as "memórias" descritas pelos africanos e seus descendentes acerca do tráfico de escravos para o Brasil, quando da disputa de suas liberdades na justiça nos últimos anos da escravidão no Brasil. Tendo por base o argumento contido no artigo primeiro da lei de 07 de novembro de 1831, que declarava livres todos os africanos que entrassem no país após aquela data, muitos cativos impetraram ações de liberdade contra seus senhores visando obter suas liberdades independentemente da vontade destes últimos. Auxiliados por abolicionistas e simpatizantes do movimento, os escravos procuravam apresentar provas que pautassem suas reivindicações, tais como os registros da matrícula geral de escravos em que suas idades eram anotadas e, sobretudo, a apresentação de testemunhas que certificassem que haviam sido ilegalmente importados para o Brasil.
Neste último caso, evidenciam-se preciosos relatos acerca do tráfico negreiro para o Brasil, tais como as estratégias para driblar o policiamento britânico e as autoridades locais, as táticas de desembarque e adaptação à nova realidade, etc. Com base nestes depoimentos e na bibliografia pertinente ao tema, problematizo alguns aspectos e estratégias pertinentes a esta importante engrenagem do sistema escravista.
 

Vinicius Pereira de Oliveira, IPHAN/RS
O estudo de trajetórias escravas como possibilidade historiográfica: o caso do africano Manoel Congo (Rio Grande do Sul/Brasil, século XIX)
Neste trabalho procuraremos, a partir da trajetória individual de Manoel Congo, sugerir a possibilidade da abordagem micro-analítica para o estudo de grupos subalternos. Este africano, reduzido ao cativeiro após aproibição do tráfico internacional de escravos, chega ao Brasil Meridional como carga do último desembarque ilegal registrado na Província do Rio Grande do Sul, em 1852. A descoberta deste fato, anos depois, gerou uma documentação judicial riquíssima em informações sobre mais de dez anos da experiência de Manoel Congo no cativeiro, reveladora de diversos aspectos da instituição escravista no sul do Brasil. Dessaforma, sua trajetória pode ser utilizada como porta de entrada para a sociedade de uma época, fio narrativo que possibilitou abordar uma diversidade de aspectos sobre a vivência escrava, tais como a organizaçãolocal do tráfico negreiro, a dimensão atlântica do mundo colonial escravista luso-brasileiro, a diversidade dos mecanismo de controle senhorial e das configurações da resistência escrava, bem como a multiplicidade das experiências cativas. Partindo de uma perspectiva que valoriza os escravos enquanto sujeitos de sua própria história, e fazendo uso intensivo de fontes documentais, buscaremos articular experiência individuale condicionamentos estruturais, como forma de tentar se aproximar da complexidade das vivências negras na sociedade escravista.
 

  Luana Teixeira, UFSC
Entre a serra e o litoral: fugas e quilombos na fronteira leste do Rio Grande do Sul e Santa Catarina
A partir do processo de titulação do território remanescente de quilombo da comunidade de São Roque iniciou-se a pesquisa histórica apresentada nessa comunicação. São Roque localiza-se na fronteira entre os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e têm a história de um passado escravista ligado à região serrana do nordeste rio-grandense. Para a compreensão da formação de um quilombo nessa região pesquisamos a sociedade escravista na antiga cidade de São Francisco de Paula de Cima da Serra focando dois eixos de análise: relações de domínio senhorial e resistência escrava. Trabalho escravo, vigilância e família, bem como fugas reivindicatórias e definitivas são temas tratados nessa comunicação.
A pesquisa acerca de um quilombo específico levou-nos à ampliação da questão, remetendo-nos ao contexto da resistência escrava através de fugas e formação de quilombos na região entre a serra e o litoral. Fundamental para esta etapa da pesquisa foi o diálogo com o trabalho realizado sobre a comunidade remanescente de quilombos de Morro Alto (BARCELLOS, Daisy M. et. AL. Comunidade negra de Morro Alto: historicidade, identidade e territorialidade.  Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2004).  A partir da idéia de "sistemas ou redes de pequenos ranchos" característico da organização quilombola dessa região do país, buscamos nos aproximar das experiências que marcaram a trajetória dos homens e mulheres que se negaram a aceitar o papel a eles legados pelo Estado escravista. Questões como mobilidade, comunicação e etnicidade são fundamentais para se compreender a organização dos grupos marginalizados (não apenas escravos) que existiam no nordeste do Rio Grande e sudeste de Santa Catarina na segunda metade do século XIX.
Para a realização dessa pesquisa trabalhamos a documentação qualitativamente, utilizando principalmente correspondência policial, processos-crime, o recenseamento de 1872 e documentação paroquial. Muito importante foi conjugar essa pesquisa à prática de campo desenvolvida pela antropologia. A metodologia foi, portanto, pautada pela utilização tanto as narrativas da comunidade quanto o discurso dos documentos para a compreensão das relações humanas invisíveis á história institucional.
 

Thiago Leitão de Araújo, UFRGS
Santa Misericórdia: caridade cristã - instituição escravista
Tendo como base a chamada Lei do Ventre Livre de 1871, pesquisamos 397 crianças enjeitadas na Roda dos Expostos de Porto Alegre entre 1867 a 1875. Nosso objetivo era fazer um estudo comparativo com o Rio de Janeiro, onde após 1871, houve um aumento significativo de crianças "negras" e "pardas" enjeitadas. Embora não encontrando o mesmo aumento para o caso de Porto Alegre, o que mais nos chamou atenção na pesquisa, foi a "racialização" encontrada na divisão do espaço hospitalar, assim como, a discriminação com relação à "negros" e "pardos". Tendo feito um levantamento dos principais membros da Irmandade, identificamos que esses correspondem à elite política e econômica da Província; o mesmo sendo verificado para o caso da Bahia e do Rio de Janeiro. Portanto, em nossa comunicação, além da apresentação dos resultados parciais da pesquisa, "caridade cristã" será compreendida e relacionada a questões como prestígio, subordinação e controle social.
 

Sherol dos Santos, UFRGS
A comunidade escrava no litoral norte do Rio Grande do Sul (a freguesia de Santo Antônio da Patrulha – 1773/1810)
As relações escravo-senhor sempre geraram controvérsias na historiografia. Mais "conservadores" ou não todos admitem que por mais "severo" que o sistema escravista possa parecer, não podemos excluir o movimento de seus agentes. Nenhuma trajetória, seja ela individual ou de grupo, pode ser analisada a partir de suas normas. Normatizar as atitudes dos indivíduos, fazendo com que eles percam seu caráter de destino individual e passem a ter comportamentos típicos de um determinado grupo, nos impede a tentativa de reconstruir contextos históricos e sociais. Com base nestes pensamentos iniciei este trabalho de pesquisa. Minha intenção era perceber como os primeiros povoadores do Rio Grande estabelecidos na região de Santo Antônio da Patrulha se relacionavam com seus escravos. Este trabalho pretende analisar a comunidade negra (cativa ou não) da região que abrangia a freguesia de Santo Antônio da Patrulha, no período de 1773 a 1810, enfocando o estabelecimento de laços familiares e a constituição de redes de parentesco. Trataremos com destaque as relações que afirmavam através do compadrio, acreditando ser esta uma das principais estratégias utilizadas por estes agentes para se movimentar entre o universo cativo e livre e sedimentar relações de solidariedade, principalmente étnicas. Utilizaremos como fonte primária os registros de batismos desta comunidade, com base nos preceitos teórico-metodológicos da história social, que a nosso ver permite o cruzamento de variáveis qualitativas e uma abordagem do universo cultural dos agentes enfocados.
 

Fábio Odair Gomes Goulart, FURG
Entre a resistência e a coerção: a vivência dos escravos na cidade de Rio Grande
O tema da pesquisa é a resistência dos escravos, o cenário onde se dá a resistência é a cidade de Rio Grande do século XIX. Mais precisamente dos anos de 1846 a 1853. A cidade de Rio Grande do século XIX é marcada por um processo de desenvolvimento urbano, modificando as relações sociais. O escravo urbano passou a circula pelas ruas e becos da cidade, oferecendo seus serviços e misturando-se à comunidade, ora na beira do cais, carregando mercadorias que chegavam dos navios, ou trabalhando como pedreiros.Este contexto urbano  proporcionou uma nova dimensão ao sistema escravista, e abriu brechas para os escravos, que estreitavam laços com a sociedade, aproveitando a mobilidade que lhes era dada  pelo próprio caráter de suas ocupações. Essa flexibilidade na relação entre senhores e escravos de ganho não limitou o anseio por liberdade e luta contra o ctiveiro. O enfoque na resistência ao sistema escravista, assegurou  ao escravo papel de protagonista na construção de sua liberdade. É  portanto pela fuga individual que se inflamou os ânimos dos demais escravos , assim as fugas individuais acabam se desdobrando em fugas coletivas,  aumentando a tensão da elite , que se via assustada com a ousadia dos escravos, e na possível formação de quilombos. È portanto pela fuga individual que se inflamou os ânimos dos demais escravos , que vendo um escravo bem sucedido em sua fuga, se arriscavam também na evasão . Assim as fugas individuais, acabam se desdobrando em fugas coletivas,  aumentando a tensão da elite , que se via assustada com a ousadia dos escravos, e na possível formação de quilombos. São essas resistências individuais e coletivas que "contaminaram" o regime escravista, lhe enfraquecendo as bases de sua sustentação, daí a importância de pesquisarmos essas "pequenas" ações de resistência, que na maioria das vezes passam desapercebidas pelo nosso olhar "viciado" em quilombos e grandes insurreições escravas, não vendo nessa ação sistemática, embora individuais,  como uma autentica oposição ao escravismo.
 

  Carina Santos de Almeida e Shana Rech, UNISC
A pimenta malagueta no Brasil colonial: interação entre africanos e indígenas
As culturas africana e indígena estão inseridas na sociedade brasileira de forma tão profunda que se torna impossível delimitar suas influências. Assim, a interação entre africanos e indígenas no uso dos temperos na cozinha, como a Pimenta Malagueta, pode ser compreendida como um dos muitos pontos de aproximação e assimilação entre as duas culturas. A pimenta malagueta fora difundida no mundo desde a época clássica até meados do século XVII na região sul da Europa, sendo que a região norte continuou utilizando este condimento alimentar. O Novo Mundo Americano usufruía a pimenta malagueta capsicum a partir do índio, da mesma forma a malagueta africana passou a ser comercializada nos portos brasileiros a partir do século XV. A malagueta, no Brasil, deixa de ser apenas preparada pelas mãos indígenas para fazer parte da alimentação da família brasileira, recebendo também o conhecimento milenar africano.
 

Marilene Ribeiro Solano, UNIVEST/ FACVEST
Na primeira metade do século XX: as  associações de afrodescendentes e a busca pela cidadania
Em sua dissertação de mestrado intitulada Corpos Nefastos: O Centro Cívico Cruz e Souza e a invenção da Nação, a historiadora Mirian Adriana Branco defende que na cidade de Lages, importante reduto político de Santa Catarina no ínicio do século XX, a exemplo de outros municípios brasileiros  em meio às ações de efetivação modernizadora mais condizentes com o novo momento político criado pela República, surgiu uma associação cívica fundada por negros, com apoio da elite municipal a que se chamou Centro Cívico Cruz e Souza. Com uma população negra nada desprezível, tal associação tinha por objetivo o levantamento e o aperfeiçoamento moral e social dessa população, assim garantido sua inserção social. A pesquisa empreendida pela professora Mirian A. Branco em sua dissertação contemplando um período que vai desde 1918 (data de fundação da associação) até 1930 (momento de alterações políticas importantes no cenário nacional), demonstra que a perseguição da cidadania foi uma constante em todas as práticas dos membros do Centro Cívico desde o seu primeiro momento. Foram muitas as ações nas quais se pode perceber a vontade de participar das ingerências municipais, das ações sociais etc, ou seja, são muitas as ações que denotam por parte dos associados, além de uma grande necessidade e vontade de superação de pré-conceitos, também a de se sentir  cidadão lageano e brasileiro. Dessa forma, no âmbito dessa pesquisa, pretendo dar continuidade à este trabalho para bem verificar se nas décadas posteriores, os  mesmos ideais permaneceram, ou se foram substituídos por outros. Levando em conta que o Centro Cívico agora um velhinho de 87 anos  ainda existe e permanece em funcionamento mesmo que precário, creio ser muito importante desvelar questões referentes à sua trajetória e assim contribuir  para com as  discussões que se referem à questão afro-descendente em Santa Catarina.                  
 

Maria Aparecida Anacleto Clemencia, UFSC
"No Nosso Tempo Que era Bom"? Tensão, Trabalho e Conflito na Sociedade Recreativa 3 de Maio (1930-1950)
AOS 3 DIAS DO MÊS DE MAIO DE 1932 É FUNDADA A SOCIEDADE RECREATIVA 3 DE MAIO, UM CLUBE SOCIAL LOCALIZADO ATUALMENTE NO MUNICÍPIO DE CAPIVARI DE BAIXO, NO SUL DO ESTADO DE SANTA CATARINA.NESTA ÉPOCA O ATUAL BAIRRO TRÊS DE MAIO, DO MUNICÍPIO DE CAPIVARI DE BAIXO ERA UMA PEQUENA LOCALIDADE DO BAIRRO BAIXO CAPIVARI, PERTENCENTE À CIDADE DE TUBARÃO. ERA UM BAIRRO FORMADO PREDOMINANTEMENTE POR AFRO-DESCENDENTES. ATÉ 1941 A REGIÃO ERA PREDOMINANTEMENTE AGRÍCOLA. COM A CRIAÇÃO DA COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL (CSN) EM 1945 HÁ UM CONSIDERÁVEL AUMENTO POPULACIONAL RESULTANDO O CRESCIMENTO DE UMA CLASSE OPERARIA. ATRAVÉS DE ENTREVISTAS, LEITURAS DE LIVROS DE ATAS E ESTATUTOS, UTILIZANDO AS PERSPECTIVAS DA HISTÓRIA SOCIAL TRABALHO, QUE DÁ VISIBILIDADE A CLASSES ANTERIORMENTE EXCLUÍDAS DA HISTORIOGRAFIA E RESPEITANDO O RECORTE DE TEMPO DELIMITADO PELAS FONTES, O OBJETIVO DESTA PESQUISA É VERIFICAR, ATRAVÉS DAS EXPERIÊNCIAS DAS PESSOAS QUE FAZIAM PARTE DESTA REDE DE SOCIABILIDADE, OS CONFLITOS SOCIAIS. TENDO ESTAS, O CLUBE COMO ESPAÇO DE SOCIALIZAÇÃO E TERRITÓRIO PARA O DESENVOLVIMENTO DESTAS TENSÕES.
 

Elci Deloss Tolomini, Carla Regina Wegner Copetti e Sandra Beatriz Essenberg, Secretaria Municipal da Educação - Giruá, RS; Savio Antônio Reginatto e Denise M. dos Santos Mello, URI - Sto Ângelo
Aspectos constituintes da história da comunidade quilombola presente no interior de Giruá, RS
Este relato parte de um trabalho de pesquisa que se preocupou em resgatar a história local de Giruá-RS, em especial da comunidade Quilombola, do Distrito de São Paulo das Tunas no Município de Giruá-RS. Ao completar seu cinquentenário, o município em questão vem resgatando suas origens, e nesse sentido é urgente a necessidade de identificar a presença da Cultura Afro em nosso meio. O processo de pesquisa, vem se dando de forma a coletar dados históricos no campo empírico através da coleta de documentos, tais como certidões e escrituras, questionários com a comunidade local remanescente, e coleta de informações através de histórias de vida -  via história oral, gravada e posteriormesnte transcrita. A análise da história e fatos desta decorridos no local, permite-nos visitar a comunidade onde residem os Afros, possibilitando-nos ainda a pesquisa através da pesquisa bibliográfica refletir sobre a composição deste povo e seu percurso histórico. Durante o período de realização desta pesquisa, que encontra-se em fase inicial, destacam-se alguns resultados preliminares, tais como: - a integração entre os Afros e pesquisadores; - resgate histórico da fundação do local; - resgate de contos e causos locais; - descrição de aspectos do padrão de  vida social, econômica, política, religiosa, cultural e artística do grupo de descendentes de escravos desta comunidade. Neste sentido vale ressaltar que as questões ligada a identidade tem se tornado um tema de dimensões cada vez mais abrangentes, uma vez que Giruá se formou através de um extenso processo migratório. Dentro desta perspectiva, a identidade local mostra que desempenhou papel  relevante na formação da cidadania giruaense, mas que a muito tempo está esquecida na memória de nosso povo. Pensa-se, no entanto que esta pesquisa e o projeto local intitulado "Os traços histórico-raciais e a comunidade Quilombola do interior de Giruá-RS",  darão novo sentido aos fatos que vem sendo resgatados e articulará a história local e seu papel na história de Giruá. Acredita-se também, que esta forma de trabalho provocará uma renovação na concepção de história local e de formas de pesquisa histórica na região, bem como possibilitará diagnose para processos específicos de desenvolvimentolocal à comunidade.
 

Luciane P. Corá Molin, UEPG
Serra do Apon: História e Hanseníase
Esta pesquisa concentrou-se basicamente nas experiências e modos de vida dos moradores da Serra do Apon, comunidade remanescente de quilombo, localizada próxima ao Vale do Ribeira, no município de Castro no estado do Paraná. Ao verificarmos os registros de comunidades quilombolas no país, verificamos a inexistência de relatos sobre essas comunidades em solo paranaense, contudo a realidade é outra. O grupo da Serra do Apon, composto por cerca de 6 famílias, basicamente de negros, com ascendentes em comum, vive em condições que nos remetem a associar seus costumes com os de outras comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil. Dessa forma, é possível conceituar quilombo contemporâneo, como comunidades negras rurais habitadas por descendentes de escravos que mantêm laços de parentesco e vivem, em sua maioria, de culturas de subsistência. Essas pessoas possuem mais do que laços de parentesco em comum. A grande maioria foi ou é portador de hanseníase, sofrendo todas as conseqüências da falta de tratamento ou do uso inadequado dos medicamentos, convivendo com o alcoolismo. Essa é uma pesquisa farta de dados, com grande responsabilidade histórico-cultural.
   

Gabriel Aladren (UFRGS)
Atividades econômicas dos forros no Rio Grande de São Pedro, c. 1780 – c. 1835
Os estudos relacionados à escravidão no Brasil inserem-se no centro de uma renovação teórica e metodológica da historiografia brasileira que ocorreu a partir da década de 1980. A pesquisa sobre os libertos constitui-se em uma das novas temáticas abordadas por esta "nova" historiografia. Nesse sentido, o presente trabalho propõe-se a analisar a inserção econômica dos forros no Rio Grande de São Pedro, no período de 1780 a 1835. Apesar da grande quantidade de trabalhos recentes dedicados aos libertos na historiografia brasileira, o conhecimento sobre as atividades econômicas por eles exercidas na região e período enfocados, ainda é lacunar. Assim, pretende-se avaliar as possibilidades de ocupação e acumulação de patrimônio deste grupo de forros riograndenses. Para tanto, propõe-se a utilização de inventários e testamentos de libertos, depositados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS), das comarcas de Porto Alegre, Rio Grande e Rio Pardo, que compreendiam a maior parte da população riograndense no período. A partir da análise qualitativa das informações fornecidas pelos inventários e testamentos, é possível verificar as ocupações dos libertos, a composição de seu patrimônio e fortuna. Pretende-se também quantificar os dados obtidos, de modo a indicar formas tendenciais de inserção econômica do conjunto da população liberta do Rio Grande de São Pedro no período estudado. Na análise inicial das fontes, pôde-se perceber que grande parte dos forros eram produtores rurais, sendo proprietários ou tendo acesso a uma porção de terra. Entre estes, a maioria era composta de lavradores e, entre os libertos urbanos, predominavam os que exerciam algum tipo de ofício. Também constatou-se a presença de escravos entre os bens dos forros, sejam esses rurais ou urbanos.
 

Ana Paula Dornelles Schantz (UFRGS).
E depois da liberdade? Família e sobrevivência econômica de libertos em Porto Alegre e Viamão no final do século XVIII
Esta pesquisa nasceu da necessidade de se entender o que aconteceu com a população alforriada após sua manumissão, particularmente no que tange à família e à sobrevivência econômica de libertos. Para compreender como os forros se inseriam economicamente na sociedade e como suas famílias eram constituídas, foram estabelecidos os seguintes questionamentos: a) como se davam as relações sociais no interior de suas famílias? b) como sobreviviam? c) com o quê e com quem trabalhavam? d) continuavam atrelados aos seus antigos senhores ou conseguiam estabelecer relações sociais com outros indivíduos, ou talvez com outros setores da sociedade? A pesquisa qualitativa, realizada através de consulta a inventários, testamentos e fontes eclesiásticas, permitiu que fossem obtidas algumas respostas às questões propostas. Entre elas está a constatação de que os laços familiares não são interrompidos com a manumissão e se prolongam além da liberdade; a constatação de que a autonomia jurídica advinda da alforria corresponde a uma frágil autonomia econômica, que muitas vezes provoca o agregamento de libertos em casas de homens brancos; e a constatação de que os poucos alforriados que dispunham de recursos possuíam escravos. Os resultados da pesquisa indicam que a maioria dos libertos de Viamão e Porto Alegre vivia em condições econômicas limítrofes – entre a autonomia desejada e a realidade econômica vivida, que os atrelava, muitas vezes a outros indivíduos. A vida após a liberdade parece ter sido bastante difícil para esses indivíduos, que encontravam na família não apenas refúgio sentimental mas também proteção econômica e social.
 

Jovani Scherer (UFRGS)
O Preço da Liberdade: o processo da compra da alforria, Rio Grande (1810-1825)
Esta pesquisa procura definir o processo da compra da liberdade no Município de Rio Grande, entre 1810-1825, relacionando as transformações estruturais ocorridas no princípio do século XIX, período do crescimento do tráfico atlântico, com as ações dos escravos em busca da aquisição da carta de alforria através de indenização. Foram utilizadas massivamente as cartas de liberdade do período, cruzando com informações provenientes de inventários, medições de terra e documentos notariais diversos. A análise tem como enfoque as relações entre senhores e escravos, e as estratégias destes em busca da liberdade, discutindo seus significados e objetivos.
 

  Juliana Aparecida Lemos Lacet, UFBA
Nações Africanas nas Irmandades Negras Mineiras do Século XVIII
Os projetos de conquista da África e do Novo Mundo, arquitetados pelos portugueses a partir do século XV, estavam estreitamente ligados à formulação de uma cultura moderna que incluía um conjunto desituações ligadas ao tráfico de escravos, ao comércio de mercadorias e à colonização. O tráfico de escravos entre a África e a América, estratégia essencial dos projetos lusitanos, foi, sem dúvida, um dos circuitoscomerciais mais importantes da história da humanidade. Estudos recentes dão conta de que algo em torno de doze milhões de africanos foram negociados entre os séculos XVI e XIX. Desse total, cerca de quatromilhões apenas para o Brasil. Mas se os números dimensionam a população africana introduzida no cativeiro, nossa pesquisa vem discutindo as formas de reorganização e diferenciação étnica desses diversosgrupos de escravos. Formas estas que tiveram como base os "nomes-nação", (Angola, Mina, Benguela, Nagô, entre outros), atribuídos aos escravos pelo tráfico e por eles re-significados, principalmente os gruposde escravos e escravas que foram para as irmandades. Surgidas na Europa medieval, as irmandades difundiram-se no contexto da reforma tridentina. De feição predominantemente leiga, eram associações quetinham como fim o culto a um santo de devoção e se dedicavam a obras de caridade voltadas para seus próprios membros, ou em alguns casos, para pessoas carentes não associadas. As irmandades obtiveramgrande representatividade na sociedade colonial, principalmente as chamadas "irmandades de cor", erguidas por escravos e escravas, forros e forras, visto que foram um dos únicos ou talvez o único meio deassociação legal permitido a eles. Em torno e no seio dessas associações, cativos das mais diversas nações desenvolveriam uma de suas formas de construção de identidade e solidariedade no processo dereorganização social no Novo Mundo. Neste trabalho estamos mapeando os grupos étnicos, ou as nações, dos irmãos e irmãs, escravos e ex-escravos, presentes na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dosPretos do Alto da Cruz, em Vila Rica, Minas Gerais, no século XVIII, no intuito de perceber as formas de comunicação, conflito, negociação cultural e, as alianças intra e interétnicas que se estabeleceram naquelaconfraria.
 

Cristiane Bahy (UFRGS)
Rosário de contas negras: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos do Arraial de Viamão (1780-1820).
Ao longo do processo de colonização Portugal trouxe para o Brasil diversas de suas instituições, dentre elas as irmandades religiosas. Espaços de sociabilidade, as confrarias erigidas por leigos, tinham comoprincípios básicos a devoção a um santo e a caridade para com os irmãos pertencentes à confraria. Dentro destas associações, os leigos se responsabilizavam pela sua devoção, mantendo a irmandade em tornodo santo devocional (orago), organizando para este uma vez por ano uma grande festa em sua homenagem, onde mostravam toda a sua devoção em procissões. Estas festas eram importantes momentos de socialização tanto para os membros da irmandade quanto para a população próxima a confraria, pois os eventos eram públicos, onde se aproximavam os irmãos da confraria daqueles que não participavam deladiretamente.
Ao virem para a Colônia as irmandades erigidas seguiram um padrão comum herdado das confrarias portuguesas, principalmente das Irmandades de Misericórdia de Lisboa, sendo moldados conforme a localidade eaqueles que a elas pertenciam. No Brasil, por exemplo, houve a formação de inúmeras confrarias de escravos tendo como oragos mais comuns Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. No Rio Grande do Sul,entre outras confrarias foi erigida no ano de 1754 "Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos pretos de Viamão".
O objetivo desta comunicação será de apresentar a confraria do Rosário como espaço de sociabilização entre escravos, libertos e livres, tanto homens quanto mulheres, já que a irmandade aparentemente não faziadistinção ao receber seus irmãos apesar de ser uma irmandade de escravos. O livro de "Entrada dos Irmãos" – onde eram registrados os novos integrantes da associação – mostra a entrada de irmãos bastantediferentes entre si dentro desta sociedade colonial.
Tratando-se de uma pesquisa de mestrado em andamento a partir das fontes primárias da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário - Livro de Despesas de Festas (1755 a 1767), Livro de Entrada de Irmãos (1773 a 1816) e Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário (1756) – se procurará fazer considerações acerca da convivência entre escravos, libertos e livres dentro desta confraria.
 

Lígia Conceição Santana, UFBA Territórios e itinerários negros em Salvador (moradia, trabalho e divertimento, 1855-1887)
A tentativa de controle dos negros, escravos, livres ou libertos, na rua, mesmo no fim da escravidão, compreende diversos aspectos e situações do cotidiano para organizar circulação, locais e momentos de não-trabalho. A documentação policial disponível dá a tônica do zelo pelo estabelecimento da ordem na cidade e dos fundamentos ideológicos que justificavam sua implementação, ao mesmo tempo em que também aponta para constantes descumprimentos destas tentativas de controle. Esta pesquisa busca entender a constituição de territórios negros; para isso, procura compreender práticas e valores culturais que se tornaram próprios às populações negras e contrários às expectativas de controle de diversas autoridades e grupos letrados. A intenção é delinear a localização destes territórios negros, acompanhando enfrentamentos cotidianos, significados sociais e construção de identidades entre os diversos sujeitos que ocupavam a cidade, negros ou não. Locais de moradia, trabalho e divertimento podem refletir espaços comuns de troca e conflito importantes para o entendimento das estratégias de sobrevivência e das formas como esta heterogênea população negra singularizou o espaço físico e social da cidade.
 

Liane Susan Muller, SMED Gravataí/SECRS
O negro e suas devoções: a importância da Irmandade do Rosário e da Festa dos Navegantes para a formação de uma elite negra porto-alegrense
No ano de 1871, quando da primeira festa dos Navegantes em Porto Alegre, a Irmandade do Rosário já havia se transformado em Arquiconfraria. O luxo, o poder, e a influência dos irmãos negros do Rosário eram bem conhecidos, tanto no meio religioso quanto entre os leigos da cidade. Isso por certo favoreceu a escolha de sua igreja para o que se tornaria uma tradição: a visita anual da imagem dos Navegantes. Em dezembro do ano anterior, enquanto o símbolo da devoção viajava de Portugal para o Brasil, mais especificamente para Porto Alegre, o 2 de fevereiro foi fixado como o dia da festa da santa das águas. Esse dia, na liturgia católica, sempre foi muito especial, pois representava o Dia da Purificação de Nossa Senhora ou de Apresentação do Senhor Jesus Cristo.
Entre 1871, ano da festa inaugural, e 1881, quando aconteceu a primeira procissão por terra do Arraial dos Navegantes (e da capelinha de mesmo nome) para a igreja do Rosário, a imagem da santa dos marinheiros viveu na Capela do Menino Deus. Era de lá que, primeiramente no dia 1º de fevereiro e, mais tarde, no domingo anterior à festa, a imagem partia em procissão fluvial para uma igreja localizada no centro de Porto Alegre. Ali ela deveria ser "conhecida, admirada e venerada".
Da mesma forma que a igreja sede foi escolhida no Arraial do Menino Deus por conta da numerosa colônia portuguesa que em 1871 ali habitava, a igreja de N. Sra. da Conceição foi a escolhida para receber a visita da imagem dos Navegantes. Tanto quanto hoje, na Av. Independência, a igreja da Conceição avizinhava com a antiga Sociedade Portuguesa de Beneficência, atual Beneficência Portuguesa. Os homens que haviam encomendado a imagem eram todos portugueses e pretendiam manter fortalecida sua devoção dentro da comunidade. Não se sabe bem o porquê, mas o fato é que no ano seguinte a santa, em sua visita ao centro, pousou na igreja do Rosário. A adoração e o respeito dos negros já havia se manifestado em janeiro de 1871, quando os iates Porto Alegre; Rio Grande e Promptidão aportaram na capital gaúcha trazendo a primeira imagem dos Navegantes. Naquele dia, a Arquiconfraria do Rosário foi às ruas ostentando seu maior esplendor. A partir de então, os negros fizeram apenas estreitar os laços com a protetora das águas. É essa relação que pretendo explicitar com este trabalho.
 

  Márcio de Sousa Soares, UFF
A dádiva da alforria: uma proposta de interpretação sobre a natureza das manumissões antes da promulgação da Lei do Ventre Livre
Este trabalho examina a incidência e os padrões das alforrias testamentárias em Campos dos Goitacases durante o processo de montagem e expansão da produção açucareira entre 1750-1830. Dialoga, portanto,com aquele segmento da historiografia brasileira que sustenta a raridade das manumissões em áreas rurais. Além disso, verifica se e até que ponto as últimas vontades dos testadores eram, de fato, cumpridas noque se refere à liberdade conferida aos escravos.
Estudos clássicos sobre as alforrias estão calcados, sobretudo, na análise serial das Cartas de Alforria, visto terem sido o instrumento preferencial para o registro das manumissões. Contudo, parte delas ficou registradas apenas nas cédulas testamentárias, servindo suas verbas como instrumento de sua legalidade, como também foi o caso das alforrias passadas na pia batismal. Portanto, isso significa dizer que asestimativas das taxas anuais de manumissão calculadas por alguns historiadores estão subestimadas. Ou seja, alforriava-se muito mais do que até bem pouco tempo se pensava.
Destaca-se ainda a importância do papel desempenhado pela crença na salvação da alma e no Purgatório na concessão das alforrias testamentárias, visto que, nesse contexto, elas eram entendidas como uma obrapia capaz de interferir no destino post-mortem dos testadores, sobretudo quando envolviam a libertação de parentes ilegítimos do jugo do cativeiro.
 

Nilsen Christiani Oliveira Borges, UFSC Meio livre, meio liberto: a conquista da alforria em Lages, século XIX Na memória lageana ainda hoje existe a figura de Adão Antunes, ou tio Adãozinho, que nasceu em Lages no final da década de 1860. Mesmo tendo nascido antes da lei do "ventre livre"(1871) teria sido alforriadomuito cedo. Exalta-se o fato de que com uma postura humilde, foi carregador mor da água da cacimba da Santa Cruz, "juntador" de lenha e varredor de pátios, sempre sem cobrar nada. Conquistando a simpatia dosdemais moradores, ficava em constante prontidão, esperando poder prestar algum favor a quem precisasse. Além de suas obrigações regulares, acompanhava a banda de música "Harmonia Lageana", sendoresponsável por carregar as partituras. O dia mais feliz de sua vida teria sido quando, já em 1933, tirou uma fotografia com um instrumento da banda no colo. Após sua morte, em uma última homenagem, o seunome foi dado a uma praça próxima à rua Rui Barbosa. Um cartaz contando essa história, fixado atualmente na entrada do museu Thiago de Casto, em Lages, reforça esta memória, que não é muito diferente daforma pela qual as relações entre senhores, escravos e ex-escravos foram abordadas pela historiografia catarinense. Muitos autores defendem que houve um tratamento humano e benigno dispensado pelosproprietários aos seus escravos, ao ponto que, mesmo com a possibilidade de conquista de alforria, o cativo, por não ter para onde ir, ainda teria preferido continuar servindo ao seu senhor, mesmo semremuneração. Com o objetivo de rever esta interpretação, o presente artigo, baseado na leitura dos Mapas de População, Escrituras de Liberdade e Inventários Post-mortem, visa abordar as formas de acesso aalforria em Lages, Santa Catarina, no período de 1840 a 1865, destacando os caminhos e estratégias percorridos pelos escravos para alcançar a tão almejada liberdade.
 

Fabiano Dauwe, UFF Os múltiplos sentidos da liberdade: a viabilidade e as expectativas da libertação pelo fundo de emancipação de escravos O fundo de emancipação de escravos foi criado pela lei n.o 2040, de 28 de setembro de 1871 (conhecida como Lei do Ventre Livre ou Lei Rio Branco), que previa a destinação de recursos pecuniários a cadaprovíncia do país para a libertação de tantos escravos quantos possível. A parte do fundo distribuída pelo governo imperial era dividida entre as províncias, proporcionalmente ao número de escravos matriculadosem cada uma. Adicionando-se a este valor o destinado pela província ou por particulares para uso interno, se houvesse, cada província disporia de um valor a ser distribuído, segundo a mesma proporção, entreseus municípios e freguesias.
O fundo de emancipação tem sido pouco observado como objeto de investigação historiográfica nos estudos sobre escravidão no Brasil, em vista da pequena quantidade de escravos que libertou em comparação aototal da população escrava, dos avultados recursos despendidos para isso e das diversas fraudes a que sua aplicação foi sujeita. Ao analisar com cuidado os valores envolvidos, pretendemos observar as possibilidades que o fundo de emancipação abria para a liberdade de alguns escravos, e como a sua existência interferia na sociedade escravista do final do século XIX.
Durante o período de sua atuação, o fundo libertou mais de 32 mil escravos em todo o país, ao custo de mais de vinte e sete mil contos de réis. O baixo percentual de libertados e, talvez principalmente, as críticasao fundo em meados da década de 1880, ajudaram a criar uma interpretação historiográfica que considerou o fundo de emancipação uma forma pouco importante de libertação de cativos. Parece-nos, contudo, queessa avaliação sobre o "fracasso" em promover as libertações decorre em grande medida do contraste entre as expectativas que foram criadas em torno desse dispositivo e os resultados que ele pôde efetivamenteproporcionar. Ao avaliarem o fundo de emancipação dessa forma, os estudos dessa linha argumentativa mais fazem expressar uma frustração com os resultados obtidos, talvez comparando-os a um ideal inatingívelnaquelas circunstâncias, do que buscar uma avaliação das razões pelas quais isso se deu – ou, mesmo questionar se, em uma perspectiva mais ampla, o fundo de emancipação não permitiria uma leituradistintaEstudos mais atuais consideram que avaliar o fundo de emancipação apenas a partir de sua "eficiência" seria encará-lo apenas como uma concessão do Estado. Por outro lado, analisar o fundo sob o prismada diminuição do poder dos senhores sobre os cativos permitiria perceber a atuação de outros grupos, escravos inclusive, na luta pela obtenção da liberdade.
 

Álvaro de Souza Gomes Neto (Faculdades Integradas Univest, Lages, SC) Algumas considerações sobre o Fundo de Emancipação de Escravos no Termo de Lages, 1871-1888
Este artigo provém de um amplo projeto, envolvendo também outros pesquisadores, sobre a escravidão no Termo de Lages, região serrana de Santa Catarina, coordenado pelo autor e desenvolvido junto ao Cursode História das Faculdades Integradas Univest, de Lages.
Pretende formular algumas considerações sobre o funcionamento do Fundo de Emancipação de Escravos no Termo de Lages, a partir de um olhar sobre a Lei do Ventre Livre. Criado em 1871, o Fundo passou afuncionar efetivamente em Lages somente em 1875, quando recebeu a primeira cota disponibilizada para a compra de escravos na região serrana. O modo como agia o Fundo e sua conexão com o GovernoProvincial torna-se importante no entendimento do processo de libertação dos cativos entre 1871 (Lei do Ventre Livre) e 1888 (Abolição da Escravatura).
Embora trabalhando com registros escassos, pudemos obter algumas informações valiosas sobre os mecanismos de libertação de cativos em Lages, a partir da ação do fundo de emancipação. As conclusões a quechegamos com a pesquisa nos levaram a perceber ratificações a respeito da manipulação de fundos públicos tanto no governo provincial quanto no municipal, o que corrobora para a ineficácia dos resultados obtidospor esses fundos de emancipação.
Somado a isso, foi-nos possível contribuir para os estudos que alguns historiadores estão realizando sobre a escravidão na região serrana catarinense, área muito pouco explorada pela pesquisa. As lacunas queestão sendo fechadas a partir dessas investigações, ajudam a diminuir as dificuldades enfrentadas ao pensarmos a escravidão longe de Desterro, capital da Província na época.
   

Adelmir Fiabani, UNISINOS Quilombo: africanos, índios e seus descendentes lutaram pela liberdade Estudos recentes apontaram para a possibilidade de que os primeiros quilombos tenham sido obra de nativo destribalizados que, resistindo à  apreensão para exploração de sua força de trabalho, fugiam para o sertão e se aquilombavam. Gaspar Barleu referiu-se a "saltedores" que procuravam abrigo nos quilombos;  Rocha Pita identificou a presença de nativos nos mesmos,. Edison Carneiro referiu-se a presença de indígenas e brancos em Palmares. Recentemente, Pedro Paulo Funari apontou para a possibilidade da presença significativa de indígenas na Confederação de Palmares. A documentação produzida pelos escravizadores atestam a presença de nativos, caburés, crioulos, desertores, etc. nos quilombos, assinalando que o fenômeno foi, sobretudo, produto do trabalhador escravizado, e não resultado exclusivo do africano escravizado. Essa heterogeneidade cultural invalida a tese 'restauracionista' tradicional de um quilombo como fenômeno contra-aculturativo da população africana no Brasil. Segundo Genovese "a cultura que surgiu nessas bases combinava elementos africanos, europeus, ameríndios e provenientes da senzala, de maneira complexa, inovadora e variada". O quilombo foi parte da resistência à escravidão que, em 1888, pôs fim à instituição, ensejando que afro-descendentes e ex-quilombolas formassem campesinato negro que passou a lutar pela conquista da terra. Atribuir às comunidades negras rurais características próprias de preservação da cultura africana nega o caráter cultural multifacetado do quilombo, uma das origem dessas comunidades, e recupera, de forma ainda mais arbitrária, as teses do "restauracionismo cultural".
 

Eliege Moura Alves, UNISINOS Uma Presença Invisível – Escravos em Terras Alemãs O objetivo desta comunicação será o de  identificar e analisar a presença escrava em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, no período delimitado entre os anos de 1850 a 1870.
A partir de 1850, com o término do tráfico internacional de escravos observa-se que a movimentação de cativos entre as províncias do Império ainda é bastante significativa inserindo-se o Sul do país nestecontexto, apesar da historiografia tradicionalmente afirmar o contrário.
Pesquisas sobre a escravidão em zonas de colonização alemã estiveram sempre presos a certas problemáticas. A primeira dizia respeito a importância da mão-de-obra escrava e a sua posterior substituição pelotrabalho livre dos imigrantes estrangeiros, a partir do século XIX, especialmente nas áreas destinadas à cafeicultura. A segunda questão refere-se à idéia tradicionalmente difundida pela historiografia sulina, de queos imigrantes não possuíam escravos visto que eram portadores de uma mentalidade moralizadora distinta  da idéia de trabalho desmoralizada por uma mentalidade lusa – colonialista e escravista. Muitos ideólogos da identidade étnica dos imigrantes no Sul do Brasil, argumentavam que a própria legislação teria sido um obstáculo para a inserção de escravos entre os alemães e seus descendentes.
Partindo de fontes primárias como Inventários post-mortem, cartas de alforria, assentos de batismo, casamento e óbitos, nesta comunicação pretendo também mostrar a existência de laços familiares entre oscativos, bem como as suas lutas pela liberdade através das cartas de alforria e a significativa parcela de escravos que desde o período anterior a chegada dos imigrantes, portanto ainda no século XVIII,  contribuíram para a construção da antiga colônia alemã de São Leopoldo.
Os resultados que ora serão apresentados nesta comunicação fazem parte da dissertação desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em História da UNISINOS, intitulada "Presentes e Invisíveis: Escravosem Terras de Alemães: São Leopoldo 1850 – 1870", sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Roberto Staudt Moreira no ano de 2004.
 

Antônio César Sprícigo, Colégio Murialdo e Colégio Castro Alves – Araranguá, SC Os  caminhos da escravidão na Freguesia do Araranguá – 1840/1888 É sabido que Santa Catarina vende uma imagem tipicamente européia para o resto do Brasil. O discurso produzido ao longo do século XX, por historiadores amadores ou não, relegou a história da escravidão emterras catarinenses a um segundo plano. Germanidade e italianidade soavam melhor para um certo tipo de discurso e historiografia, do que termos como: escravidão, negros, etc. Na antiga Freguesia Nossa SenhoraMãe dos Homens do Araranguá, criada em 1848, (território pertencente no passado a Laguna), o discurso produzido por descendentes de imigrantes italianos, entre eles: Pe. João Dall'Alba, Pe. Paulo Hobold, Pe. Raulino Reitz,  criaram uma imagem de um território notadamente branco. Atualmente o território da antiga Freguesia, constitui-se em duas microrregiões: Amesc e Amrec, onde se destacam municípios comoCriciúma, Nova Veneza, Araranguá e Turvo além de outros menores que tem como característica marcante a presença de imigrantes italianos. Entretanto, toda a área da Freguesia do Araranguá fora um pontoimportante de passagem entre Laguna e Porto Alegre, aparecendo no século XVIII como caminho para as tropas de gado vindas do Rio Grande do Sul. Posteriormente, no século XIX, em função da movimentaçãode tropeiros e da expansão de açorianos e seus descendentes, a região foi sendo gradativamente ocupada, tendo a população desenvolvido uma economia ligada a produção de farinha de mandioca. As populaçõesque para cá se deslocaram não eram abastadas, porém possuíam escravos para o auxílio nas mais diversas lidas. A análise de inventários post mortem, alforrias, processos de arbitramento, casamentos e registrosde batismo de escravos, me permitiram discutir a presença escrava nas terras da antiga Freguesia do Araranguá, contrapondo essa análise, a de uma terra reconhecida como "terra de italianos."
   

Caiuá Cardoso Al-Alam, UNISINOS Questões acerca dos enforcamentos de escravos em  Pelotas-RS A cidade de Pelotas, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, formou-se, principalmente, através da indústria do charque, que usufruía de uma ampla mão-de-obra escrava. Eram sujeitos diversos, oriundos de diversas partes da África os quais, amontoados em senzalas e porões, reinventavam as suas formas de viver e resistir.
Os senhores, donos de escravos, utilizavam-se de diversos métodos para forçar o trabalho escravo ao máximo, bem como sua disciplina. Esse disciplinamento, muitas vezes, levava à morte esses trabalhadores, e sabe-se que os donos estavam  muito preocupados com a  perda de sua mão-de-obra, pois acarretava uma despesa considerável. A resistência escrava foi constante e envolveu ações que transgrediam os códigos de posturas da época, levando muitos sujeitos a serem perseguidos e julgados pelo Estado. Assim, muitos desses trabalhadores foram chicoteados, castigados e, inclusive, condenados à morte.
Em Pelotas, os locais das execuções públicas, através da forca, foram diversos, sempre localizados em terrenos de antigas praças da cidade. Neste trabalho pretendo dialogar acerca das características do ritual de enforcamento que envolvia todo um roteiro onde o condenado era obrigado a caminhar pelas principais ruas, acompanhados de padres, da polícia, e de populares curiosos com a situação.
 

Martha Rebelatto, UFSC A bordo do Higkland Mary of Sag Harbor: uma tentativa de fuga escrava (Desterro, 1868) As fugas de escravos foram comuns durante quase todo o século XIX em Desterro. Em minha pesquisa de mestrado pretendo esboçar um panorama das fugas de cativos, mostrando um perfil dos escravos fugitivos, algumas expectativas em relação à fuga, tentando comparar este quadro com o do restante do país. Para isso, utilizo jornais de época (principalmente anúncios de escravos fugitivos), relatórios do Presidente da Província, ofícios e correspondência de Chefe de Policia e de Juízes, censos, entre outras fontes. A análise já efetuada de grande parte destas fontes trouxe à tona algumas tentativas de fuga peculiares. Algumas destas tentativas envolveram a fuga para barcos de passagem pelo litoral - fossem eles sumacas nacionais, baleeiros, canoas, etc. - como estratégia para escapar do cativeiro. Este tipo de fuga, possibilitado, em Desterro, pela localização no litoral e proximidade do Porto, pretendia ser geralmente definitiva, pois os escravos partiam com os barcos. O descontentamento das autoridades locais, devido à recorrência destes acontecimentos, levou a inquéritos policiais de investigação e, em alguns casos, de captura dos capitães destes navios. Meu objetivo neste artigo é seguir algumas pistas que dêem luz às articulações feitas entre os próprios escravos, entre escravos e marinheiros ou com a comunidade local para viabilizar a fuga.  Para isso, vou seguir os rastros de um caso mal-sucedido, que acabou resultando em inquérito policial. O fato ocorreu no ano de 1868, quando sete escravos foram capturados já dentro do Brigue Baleeiro Norte Americano denominado Hegkland Mary of Sag Harbor, que estava ancorado defronte à ilha das Aranhas. A investigação seguiu para se averiguar a culpa do Capitão do respectivo baleeiro, por permitir que escravos fugitivos fizessem parte de sua tripulação. Para isso a polícia contou com o depoimento do português João Cardoso Jaques, marinheiro desertor do dito Brigue Americano. Este, além de relatar o crime de aliciamento de escravos, ainda nos falou do excesso de castigos sofridos pela tripulação do navio por ordem do Capitão, motivo que o teria feito desertar.
 

Daniela Vallandro de Carvalho, UNISINOS Experiências de cativeiro e liberdade nos fins do século XIX (interior do RS) Esta comunicação pretende abordar a(s) experiência(s) de escravidão e liberdade em fins do século XIX, privilegiando o olhar sobre as relações conflituosas travadas entre senhores, escravos e libertos, bem comosobre as diferentes concepções empregadas por estes atores sociais a noções de liberdade, lealdade, trabalho, violência e justiça. Tendo como eixo central o estudo de um caso individual e usando como fonteprimária um processo criminal pretendemos lançar luz sobre experiências semelhantes compartilhadas por outros indivíduos e exercitar a validade deste tipo de estudo na análise das experiências negras, buscandoum jogo dialético entre individual e coletivo. Buscamos ainda, seguir pistas de casos individuais como forma de pensarmos a experiência negra pós-abolição, campo historiográfico bastante fértil, porém poucoconhecido/explorado nos estudos derivados da escravidão.
 

Rodrigo de Azevedo Weimer, UNISINOS Nominação e identificação de ex-escravos através de processos criminais: São Francisco de Paula, RS, 1880-1900 Durante os anos finais da escravidão e o imediato pós-abolição, ocorreu um processo de redefinição das categorias étnico-sociais até então utilizadas. As mesmas foram objeto de disputa em um momento de reformulação das relações de trabalho. Nesse sentido, no presente estudo busco perceber esses aspectos através das formas pelas quais diferentes indivíduos egressos do cativeiro foram nomeados e identificadosem processos criminais e inquéritos policiais de São Francisco de Paula de Cima da Serra. Esses autos foram pesquisados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Optou-se por esta localidade por tersido região de economia pecuária baseada na mão-de-obra escrava que até o momento pouco interesse despertou na historiografia regional.
Percebe-se a existência de diferentes formas de composição e utilização do nome de presumíveis ex-escravos (presença ou não de sobrenomes, utilização da partícula "de Tal", apelidos, alcunhas profissionais ououtras, o acúmulo de diversos nomes próprios, a referência a algum familiar, utilização de qualificativos de cor). Em alguns casos, a condição de antigos cativos era explicitada, eventualmente junto ao nome doantigo senhor, e em outros não. Além disso, diversos modos de identificação eram freqüentemente utilizados de forma simultânea em um mesmo processo.
Procura-se entender tal fluidez a partir de diversos elementos. Era um momento em que algumas categorias sociais até então existentes subitamente perdiam o sentido ou mesmo validade jurídica, o que tornacompreensível a confusão de diferentes qualificativos utilizados (que, por outro lado, já vinham sofrendo transformações desde meados do século XIX – Mattos, 1998). Além disso, de maneira alguma estava fora dalógica daquela sociedade a utilização simultânea de mais de um nome. Finalmente, atribui-se tais variantes à situacionalidade do emprego de cada denominação no andamento processual. O sujeito da fala(representantes do poder judiciário ou da polícia, testemunhas de estatuto social semelhante ou superior ao do referido, a auto-identificação da pessoa em questão) e o contexto de enunciação (antagonismo ousolidariedade entre o depoente e o referido, a tentativa de caracterizar alguém como suspeito, culpado ou inocente, ou de passar uma imagem melhor ou pior) certamente dizem muito a respeito dessas variações.
  

Aristeu Elisandro Machão Lopes, UFRGS Representações da Escravidão e da Abolição nas caricaturas da imprensa ilustrada e humorística pelotense do século XIX A cidade de Pelotas foi um dos centros urbanos mais desenvolvidos da Província do Rio Grande do Sul no 2º Império. A riqueza proporcionada pela indústria e comércio do charque e a utilização da mão-de-obraescrava possibilitou não só o crescimento econômico, como também favoreceu a urbanização e o aparecimento de uma intensa atividade cultural. Assim a imprensa também prosperou, tendo o livro e o jornal comoos principais atrativos. Ao encerrar do século XIX, Pelotas contabilizava 116 jornais, entre eles, três periódicos ilustrados e humorísticos:  Cabrion (1879-1881), Zé-Povinho (1883) e A Ventarola (1887-1889). Opresente trabalho propõe investigar através das caricaturas, desenhos e textos humorísticos veiculados nessa imprensa, as representações relacionadas à escravidão, à campanha abolicionista e as repercussões da Lei Áurea. Averiguando como a sátira era empregada nos periódicos para criticar a sociedade escravista pelotense, especialmente nas caricaturas veiculadas em A Ventarola após o dia 13 de Maio de 1888. 
 

Lucia Helena Oliveira Silva, UEL Vivências negras no pós-abolição: libertos e afro-descendentes no Paraná. Esta comunicação busca trabalhar as primeiras reflexões sobre a vida de libertos, negros livres e afro-descendentes em geral no período pós-abolição no estado do Paraná. Partindo da bibliografia que discute a escravidão nessa província e os trabalhos que analisaram a escravidão sob a ótica da história social e demográfica, tentamos compreender alguns aspectos da escravidão paranaense e os reflexos sobre a vida dos emancipados que ali viviam. Nossa fonte primária para a pesquisa são processos criminais que envolvem libertos e afro-descendentes  em Curitiba e região no período de 1888 a 1920. Além de refletir sobre a constituição das vivências, tentamos compreender as formas de sociabilidade e conflito com os imigrantes e demais segmentos da população.
 

Frank Nilton Marcon, UFSC Identidade e diferença: "homens de cor" e o "Centro Cívico Cruz e Sousa" O "Centro Cívico Cruz e Sousa", existente até os dias de hoje na cidade Lages, estado de Santa Catarina, foi fundado no ano de 1918. Nas notícias da época e no seu estatuto de fundação os sócios o proclamavamcomo clube ou sociedade dos "homens de cor". Segundo alguns documentos e entrevistas o "Centro Cívico" foi idealizado por alguns negros ligados a uma escola noturna para adultos e no primeiro ano de fundaçãojá contava com mais de sessenta sócios. Na sede do clube se organizavam festas, bailes, solenidades e sessões comemorativas. Os eventos anuais mais badalados eram as comemorações do "13 de Maio" e do "22 de Setembro"(data da fundação do clube). A agremiação social editava um jornal, tinha banda musical e um hino cívico executado nas principais solenidades. Fundado num contexto de três décadas após aAbolição, numa cidade como Lages (de considerada projeção política e econômica em Santa Catarina), marcada pela economia pastoril e pelo coronelismo mas sintonizada com o civismo e o nacionalismo do pós-primeira guerra, a organização destes "homens de cor" sugere que a articulação coletiva dos afrodescendentes na região utilizou-se de estratégias políticas e institucionais de visibilidade e inclusão "na nação", pautando-se por princípios de "cor" e nacionalismo agregados aos seus significados de civilidade e civismo. Neste trabalho, procuro pensar questões ligadas às estratégias de identificação e diferença do afrodescendentes na cidade, através da institucionalização do "Centro Cívico", bem como os possíveis sentidos de resistência política, por um lado, e de cooptação dos ideais de civilidade e civismo burgueses, poroutro – característicos do projeto republicano das primeiras décadas do século vinte no Brasil. É importante ressaltar que venho estudando os percursos do "Centro Cívico" desde os fatos precursores de suafundação até os dias atuais e a partir daí traço comparações com outras formas de organização política e social pós-escravidão no Brasil, sempre levando em consideração as especificidades e os contextos sociaise políticos em que os mesmos estiveram pautados.
 

Arilson dos Santos Gomes, FAPA-RS A Frente Negra Brasileira e as suas idéias no Rio Grande do Sul na década de 1930 A Frente Negra Brasileira surgiu em São Paulo, no ano de 1931. A sua principal reivindicação era a inserção do negro na sociedade, principalmente através da educação. Para os seus líderes a condição do negro somente seria modificada, se houvesse uma entidade capaz de possibilitar a ele condições favoráveis para o seu esclarecimento e uma possível ascensão social. Em uma sociedade, na época, historicamente escravocrata e racista, porém diversa, a principal forma de se organizar frente a esses problemas seria, segundo os seus fundadores, reunir pessoas negras em busca de uma afirmação social e que os conscientizasse das condições enfrentadas pelos negros, educando-os quatro décadas após a Abolição da Escravidão. A educação era primordial nas suas diretrizes. Os bailes e as festividades eram constantes e se consolidavam como importantes elementos para a identificação coletiva e fonte de recursos financeiros. A Frente Negra Brasileira se constituiu em um movimento altamente centralizado, tornando-se capaz de estruturar-se em núcleos e células por quase todo o Brasil. Em vários municípios do Estado de São Paulo, nos Estados de Minas Gerias, Bahia, Sergipe e Pernambuco, também existiram núcleos dessa organização. No Rio Grande do Sul, dados apontam 1933 como o ano da vinda das idéias desse pensamento para o nosso Estado. Pelotas, principal cidade charqueadora do século XIX, impulsionada pela mão de obra escrava se constituiu, no Pós-Abolição, numa cidade com grande número de população negra, possuindo ao longo de sua história diversas irmandades, associações e organizações que atuaram constantemente na causa dessas pessoas como meio de melhorar as suas condições de vida. A Frente Negra Pelotense, baseada no pensamento da Frente Negra Brasileira, em 1933, foi a principal ligação gaúcha do movimento "frentenegrino". Este trabalho tem como principal função mostrar, através de dados e pesquisas, como a Frente Negra, através de sua organização e coesão, conseguiu atingir tamanho sucesso, entre a população negra e respeito por parte da sociedade, inclusive tornando-se partido político, integrando outras organizações do movimento negro, espalhadas pelo Brasil incluindo um núcleo em Pelotas. O movimento "frentenegrino" deve ser lembrado para que as novas demandas sociais exigidas pelo movimento negro, coloquem a causa negra em primeiro plano frente à fragmentação causada principalmente pela competitividade e individualidade dos tempos atuais.
 

Mirian Adriana Branco, UNIVEST/ FACVEST Em Santa Catarina, os afro-descendentes e o condicionamento da cidadania Enquanto que ao regime monárquico ligaram-se fortemente as práticas escravocratas, o início de nossa experiência republicana é permeado pelos reflexos da abolição da escravatura, ato que além de lançar nomeio social, centenas de indivíduos sem moradia, sem recursos ou perspectivas, ainda emoldurava todo um ideário que sugeria exclusão. As relações que se estabeleceram em meio a projetos de construçãonacional, por conta do deslocamento do trabalho servil para o livre fizeram com que teorias raciais fossem reelaboradas, nacionalismos fossem adaptados, saberes importados, e principalmente os indivíduoschamados a compor a nacionalidade brasileira fossem selecionados.
Dessa forma, fazer parte da nação no século XIX, não era um privilégio de todos. Alguns como os negros africanos e seus descendentes, não se conformavam a um modelo de cidadão em construção durante anossa primeira experiência republicana. Tempo em que podemos perceber, em detrimento da integração social dos recém-libertos, o esvaziamento da sua individualidade, e a inclusão destes num grupo racial. Umaamostra dos muitos desdobramentos de um saber essencialmente biológico que assolava o Brasil, e que propagando a crença na sua incapacidade física, social e moral, afetava diretamente a vida dos muitosnegros, outrora escravos ou não, que buscavam a sua inserção nos diversos setores da sociedade brasileira. Quando chega o século XX, a situação não é muito diferente, ainda com poucas possibilidades deascensão social devido a fatores como alto índice de analfabetismo, os afro-descendentes percebem que mostrar-se apto a cidadania, significava a transposição de discursos que professavam sua não civilidade,através de ações que demonstrassem uma outra versão, escrita nas suas muitas ingerências no meio social, nas suas intervenções na vida pública, nos seus aprendizados na vida privada, no seu comportamento,seu modo de falar, de andar, de movimentar o próprio corpo. Era preciso branquear. O surgimento de associações negras que espalharam-se pelo país se deu neste contexto, tornando-se importante veículo dediscussão e participação no espaço urbano. Um território de construção, onde seus membros esforçavam-se para serem reavaliados e re-significados. Na escalada rumo à cidadania estas associações serviram paraque seus membros continuassem reivindicando benfeitorias para os municípios no qual se estabelecem; comemorando datas cívicas; organizando bibliotecas; instruindo-se, e inserindo-se, através da permanentetentativa de superação de discursos que colocavam as suas incapacidades ora sob o peso racial, ora de cunho cultural.  Por isso, pretendo apresentar os resultados da análise dos procedimentos e práticasimplementadas pelos membros do Centro Cívico Cruz e Souza, uma das primeiras associações cívicas fundadas por negros no Estado de Santa Catarina, afim de perceber os vestígios da luta pela construção dasua cidadania empreendida por tais indivíduos, num estado considerado majoritariamente branco.

VOLTAR